Consumismo excessivo pode ser sinal de transtorno psiquiátrico

quinta-feira 6 de março de 2008.
 
Compras excessivas podem ser sintoma de transtorno do comprar compulsivo (TCC), diz pesquisa do Instituto de Psiquiatria da USP, do Centro de Adição e Saúde Mental da Universidade de Toronto, no Canadá, e do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Iowa, nos EUA. Mulheres representam mais de 80% das amostras clínicas.

O problema do consumismo excessivo não é só o risco de endividamento. O ato de comprar repetitivo e fora de controle pode ser na verdade um sinal de doença. Esse é o tema de um trabalho realizado por pesquisadores do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP), do Centro de Adição e Saúde Mental da Universidade de Toronto, no Canadá, e do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Iowa, nos Estados Unidos. O foco da pesquisa é o Transtorno do Comprar Compulsivo (TCC), também chamado de oniomania, uma síndrome psiquiátrica persistente e universalmente predominante, que tem muito em comum com transtornos do controle do impulso.

O estudo foi feito com base nos artigos científicos sobre o TCC publicados nos últimos 40 anos. O trabalho, que será publicado na próxima edição da Revista Brasileira de Psiquiatria, menciona que o elemento chave da oniomania é a impulsividade. Suas vítimas, chamadas oniomaníacos, de maneira geral não conseguem evitá-la e em sua maioria (mais de 80%) são mulheres. Mesmo os que têm uma boa formação acadêmica apresentam dificuldades para perceber as conseqüências de sua compulsão. As preocupações e os impulsos da pessoa se voltam ao ato de comprar. De acordo com o artigo isso causa sofrimento, consome muito tempo, interfere no comportamento social ou ocupacional ou resulta em problemas financeiros como o endividamento ou falência.

Um dos autores do estudo, o psiquiatra Hermano Tavares, do Instituto de Psiquiatria da USP, conta que a vítima do TCC pensa tanto em como conseguir dinheiro para comprar que não se concentra no trabalho, passa muito tempo comprando, buscando crédito, pagando dívidas, sonhando com itens que quer comprar, ou culpando-se por ter comprado itens desnecessários, e negligencia família, profissão e tudo mais.

Esses sintomas são usados para diferenciar o TCC do Transtorno Afetivo Bipolar (TAB), no qual, segundo Tavares, o paciente fica tomado por excitação e euforia patológicas, fala muito, faz tudo muito rápido, faz tudo em excesso, inclusive comprar. “No TCC os excessos são concentrados nas compras e a perda de controle ocorre em períodos de humor normal, embora ‘porres’ de compras possam ser precipitados por ambos momentos de depressão ou euforia”, diz Tavares.

O que também dificulta o reconhecimento da doença é o fato de o TCC não fazer parte do Manual de Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais nem da Classificação Internacional de Doenças (CID) da Organização Mundial da Saúde. Segundo Tavares, essas omissões nos documentos também prejudicam o tratamento da enfermidade. Para ele, isso ocorre porque o diagnóstico ainda necessita de critérios objetivos que atinjam consenso entre os profissionais de saúde mental. “Por isso, é mais importante ainda apurar as formas de reconhecimento e aprofundar as pesquisas em tratamento”, diz ele. O pesquisador afirma que existem dados que sugerem melhora nos casos tratados da forma adequada.

Entre os medicamentos promissores, segundo o especialista, estão os antidepressivos fluvoxamina e citalopram, o anti-epiléptico topiramato e ainda o naltrexone, já utilizado no tratamento do alcoolismo. O efeito de certos agentes está associado às possíveis causas neurobiológicas do TCC apontadas no artigo, como alterações na transmissão neuronal (comunicação entres as células do cérebro) mediada por substâncias químicas.

De acordo com o psiquiatra, quem suspeita sofrer do transtorno do comprar compulsivo deve procurar um profissional de saúde mental treinado para diagnosticar e tratar compras compulsivas e outros transtornos do impulso como comer e jogar, por exemplo. “A associação entre esses transtornos é muito comum”, diz o pesquisador.

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