Pesquisa estuda influência do El Niño na pesca de sardinha

sexta-feira 22 de fevereiro de 2008.
 
Episódios climáticos podem alterar temperatura da água nos locais de desovas e assim aumentar ou diminuir a produção de sardinhas. Nos estudos feitos pelo INPE são utilizados dados coletados por satélite além dos fornecidos pela indústria da pesca.

A intensidade de episódios cíclicos como o El Niño influi na formação de correntes no oceano e afetam a temperatura ambiental. Esses dois fatores estão ligados à produtividade das zonas costeiras marinhas. Os cardumes de sardinha, por exemplo, em busca das condições mais favoráveis, podem alterar os locais de desovas. Tentar entender esses processos e fazer previsões que minimizem os erros e otimizem a forma de aplicação de recursos é um dos projetos de Eduardo Tavares Paes, da Divisão de Sensoriamento Remoto do Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE), em São José dos Campos (SP).

A sardinha tem uma grande importância econômica e social. Em 1973, essa espécie já chegou a produzir 228 mil toneladas correspondendo a cerca de 25% de toda a produção brasileira de pescados. Atualmente a pesca da espécie não chega a 40 mil toneladas por ano. Órgãos do setor, como o Instituto de Pesca de Santos, fazem um cadastro de informações com estimativas mensais de pescas em uma determinada área. Segundo Paes, a sardinha tem uma função ecológica muito importante no ecossistema e é a espécie brasileira mais estudada devido à sua importância econômica e social, por causa disso os dados sobre essa espécie são de melhor qualidade.

Os pesquisadores também usam informações fornecidas por mais de um satélite, numa rede de cooperação internacional, para coletar dados tais como a temperatura ambiental, a concentração de clorofila, a pluviosidade (quantidade de chuvas) e a direção e velocidade do vento, com periodicidade de 6 a 8 horas. As medidas de temperatura ambiental são feitas através de leituras da radiação emitida pela superfície do oceano. “O satélite consegue medir os dados ambientais de uma área muito grande ao mesmo tempo e de forma acurada”, afirma o pesquisador.

O estudo foi feito abrangendo uma área elíptica costeira que vai desde Arraial do Cabo no estado do Rio de Janeiro até o cabo de Santa Marta em Santa Catarina, abrangendo uma superfície de 150 mil km2. A equipe usa os dados climatológicos e de quantidade de pescados desembarcados para produzir modelos ecológicos - equações matemáticas que vão servir de apoio às análises de desembarque de pescados e orientar as tomadas de decisões.

Embora os satélites tenham começado a operar de forma abrangente somente na década de 80, foi possível integrar nos sistemas os dados disponíveis desde 1950. Por isso, é possível calcular a temperatura ambiental média daquela região para cada mês e compará-la aos dados de vários outros anos. Quando a temperatura do mês é muito diferente da média calculada para aquele mês nos anos anteriores, é registrada uma anomalia.

Paes afirma que nas pesquisas ecológicas marinhas o ideal seria que a temperatura ambiental fosse medida através de embarcações oceanográficas, porém, esses equipamentos exigem um investimento elevado. A solução, então, foi usar dados climáticos fornecidos pelo INPE (por satélites) aliados aos dados de temperatura da água no local e dia da captura do pescado compilados do Banco Nacional de Dados Oceanográficos (BNDO) da Marinha brasileira.

Os dados de desembarque de peixes são fornecidos pelos navios pesqueiros que também informam onde foi feita a pesca. Esses números mostram que a oferta do pescado não caiu linearmente, mas teve períodos de altas e de baixas. O pesquisador afirma que em 1984, dois anos depois do intenso El Niño de 1982, que provocou um abaixamento da temperatura da água, o desembarque foi de 140 mil toneladas, um valor maior do que o dos anos anteriores. Já no ano de 1988, a pequena produção de 75 mil toneladas pode ter sido conseqüência da elevação da temperatura da água em decorrência do El Niño de baixa intensidade ocorrido em 1987. O trabalho resultou em um artigo que foi publicado na revista Pan-American Journal of Aquatic Sciences no ano passado.

Para que se chegue a uma hipótese mais sólida, porém, outras variáveis terão que ser incluídas nessa análise. Dados climatológicos, oceanográficos, ecológicos e pesqueiros devem ser analisados de forma multidisciplinar. “O grande desafio é definir o quanto das flutuações dos recursos pesqueiros é causada por fenômenos naturais (cíclicos), pela pesca e pelas mudanças climáticas globais”, diz o pesquisador que agora está também envolvido em estudos das flutuações ambientais das tainhas.

Estudos como esses podem ajudar a descobrir ameaças de extinção de determinadas espécies de peixe. Com isso, é possível tomar medidas preventivas como a implantação de proibição de pesca em período reprodutivo (o chamado defeso), criação de uma área de preservação onde não se permite atividades pesqueiras e até a proibição de pesca da espécie.

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