MCT quer qualificar produção tecnológica nacional

quarta-feira 30 de janeiro de 2008.
 
O Centro de Pesquisas Renato Archer, unidade de pesquisa do Ministério de Ciência e Tecnologia, participará de dois projetos com recursos da Finep na área de qualificação e certificação de placas de circuito impresso e componentes eletrônicos, buscando incentivar o crescimento da indústria brasileira no setor.

O Centro de Pesquisas Renato Archer (CenPRA), unidade de pesquisa do Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT), encabeça dois projetos na área de qualificação e certificação de placas de circuito impresso e componentes eletrônicos, buscando incentivar o crescimento da indústria brasileira neste setor. A Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), do MCT, divulgou em janeiro um aporte de recursos para essas iniciativas. Eles virão do Fundo CT Verde-Amarelo, que objetiva o fortalecimento da integração entre empresas privadas e institutos de pesquisa públicos.

O Sistema de Avaliação da Conformidade - Placas de Circuito Integrado (SAC-PCI) é um projeto ancorado pelo CenPRA e conta com a participação do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe), Instituto Nacional de Tecnologia (INT), a empresa certificadora internacional TÜV, além da Associação Brasileira de Circuitos Impressos (Abraci), que representa as empresas produtoras de placas. O programa surgiu em 2006, num cenário em que os fabricantes nacionais possuíam qualidade, mas enfrentavam restrições do mercado, devido à falta de certificações nacionais e internacionais de seus produtos.

Qualificar e certificar equipamentos de microeletrônica são processos complexos. Para a análise, são necessários diversos equipamentos, como microscópios ópticos, aparelhos para mensurar as dimensões mecânicas, a condutividade elétrica, máquinas de fluorescência para determinar a espessura de cada camada metálica e câmaras climáticas para submeter as placas a estresse e verificar sua durabilidade. Esses testes verificam se as placas cumprem a sua função eletrônica e, ainda, se conseguem resistir a mudanças de temperatura. Tais procedimentos asseguram a qualidade do produto tanto para uma empresa compradora, quanto para o consumidor final.

Marcos Pimentel, responsável pela Divisão de Qualificação e Análise de Produtos Eletrônicos do CenPRA e um dos coordenadores do projeto, ressalta a importância da iniciativa. “Poderemos oferecer à indústria nacional a estrutura de laboratórios federais que podem qualificar a produção nacional em níveis internacionais. Esta é uma ferramenta que abre portas para os produtos brasileiros, alavancando as vendas, exportações e o crescimento da indústria”, avalia.

A maior barreira para os fabricantes nacionais de placas de circuitos integrados é justamente a exigência de certificados internacionais que os grandes compradores fazem. “O SAC-PCI objetiva dar a eles essa certificação. Na Fase I do projeto, nós traduzimos todas as normas da IEC (Comissão Eletrotécnica Internacional). Hoje, elas são NBR [Normas Brasileiras] da ABNT. Na fase II, iniciamos a compra de equipamentos que vamos finalizar agora na fase III, para a total implementação do sistema”, conta Pimentel.

O projeto buscou envolver também a indústria. Em 2007, foram realizados dois grandes eventos juntos aos fabricantes membros da Abraci e aos usuários finais de placas, as empresas montadoras de produtos eletrônicos. O objetivo foi mostrar a eles a importância da certificação e fazer com que entendessem como a conformidade com as normas da IEC abre mercados.

O SAC-PCI está iniciando sua terceira fase com um aporte da Finep de R$ 2 milhões. O montante será destinado à qualificação de recursos humanos e adequação da estrutura dos laboratórios do CenPRA, do Inpe e do INT, que operarão os serviços. Serão implementados os processos de qualificação e certificação de placas nuas (sem componentes instalados).

Pimentel estima que até o fim de 2008 os laboratórios já poderão analisar as placas nuas. Neste ano, se iniciará o programa para avaliar a conformidade de placas montadas (com chips, transistores etc.). No final de 2009, estas também poderão ser testadas. Nesta fase, estudos ambientais também entraram no escopo do projeto, como, por exemplo, a tecnologia Design for Environment, que projeta os produtos já pensando no seu descarte. O SAC-PCI oferecerá consultoria técnica para que os fabricantes atinjam estas normas.

As primeiras certificações farão parte de um projeto piloto, que testará também os laboratórios certificadores. A Abraci irá selecionar quatro fabricantes, de tamanhos diferentes, que terão o benefício a um custo mínimo. A idéia é que isto aumente o interesse na obtenção da certificação por parte das outras empresas.

A retomada dos componentes eletrônicos nacionais

O SAC-CE, para avaliação de componentes eletrônicos, também é ancorado pelo CenPRA e tem a participação do Inpe, do Centro de Ciência, Tecnologia e Inovação do Pólo Industrial de Manaus (CT-PIM) e da Fundação de Ciência e Tecnologia (Cientec), ligada ao governo do Rio Grande do Sul. Este projeto faz parte de um programa do MCT: a Política Nacional de Microeletrônica. Ela envolve três iniciativas: criar centros de design para projetar chips; implantar fábricas para estes e, testar, avaliar e qualificar os componentes aqui produzidos. Dentro das diretrizes da Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior, o MCT vê a área de microeletrônica como estratégica para o Brasil. Ela é fonte de um grande déficit na nossa balança comercial, pois não há produção de componentes eletrônicos por aqui.

O programa do MCT já conta com cinco design houses que projetam chips no Brasil: o CenPRA, o Inpe, o CT-PIM, a Cientec e o Centro de Excelência em Tecnologia Eletrônica Avançada (Ceitec), de Porto Alegre. Atualmente, os chips projetados nesses centros têm que ser fabricados fora do Brasil. O Ceitec aguarda um decreto que o tornará uma empresa pública, como a Embrapa. Ali, estão sendo construídas instalações para a fabricação dos chips.

Segundo Marcos Pimentel, do CenPRA, o SAC-CE está em sua primeira fase. As atividades iniciais são: traduzir as normas internacionais, planejar a compra de equipamentos e iniciar a qualificação de recursos humanos. O CenPRA será um centro de design e também irá encapsular, testar e avaliar os chips. “Todas essas iniciativas do MCT têm o objetivo de fortalecer a indústria nacional. Com laboratórios federais capazes de garantir a qualidade dos produtos em níveis internacionais, as fábricas já instaladas podem crescer muito, além de servir como um chamariz para novas virem e se instalarem por aqui”, conclui.

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