Frevo, carnaval e ciência

terça-feira 29 de janeiro de 2008.
 
O frevo ganha destaque neste início de ano focalizado por uma pesquisa de doutorado defendida no último dia 28 na Unicamp, tematizado pela Escola de Samba Mangueira, que encerra as comemorações do centenário deste ritmo, e como inspirador de bloco pernambucano que homenageia Darwin.

O frevo é resultado da mistura e evolução da polca, do dobrado, da marcha e do maxixe. Surgiu da aceleração da cadência destes ritmos nos fins do século XIX, quando eram tocados por bandas civis e militares em eventos e festividades. "Frevendo no Recife" é o título da pesquisa de Leonardo Vilaça Saldanha, apresentada como tese de doutorado no último dia 28 no Instituto de Artes da Unicamp.

Reconhecidamente um ritmo de rua, o frevo firmou-se através da reprodução de suas músicas pelo rádio. “O frevo surge entre o final do século XIX e princípio do XX, mas só se consolida na década de 1930, na chamada Era do Rádio”, explica Saldanha. De acordo com o pesquisador, o rádio teve papel fundamental nessa consolidação, pois foi através dele que pôde ser amplamente divulgado em Pernambuco e difundido pelo país. “O frevo é uma música urbana. Com o rádio, ele sai de uma situação mais artesanal, do carnaval de rua, e passa a ser um produto vendável”, completa Claudiney Rodrigues Carrasco do Instituto de Artes da Unicamp e orientador da pesquisa de Saldanha.

Para Carrasco, o advento do rádio revoluciona a divulgação no meio musical, até então feita através do teatro popular, das revistas de variedades e das casas de partitura, transformando a música em um produto industrial de entretenimento e consumo. “Afinal foram a indústria fonográfica e o rádio que criaram esse conceito que temos hoje de música popular”, diz.

Carrasco acredita que a maior virtude da pesquisa de Saldanha foi realizar uma análise melódica, rítmica, harmônica e instrumental do frevo. “O estudo - explica Carrasco - traz um mapeamento detalhado dos subgêneros do frevo, com as características de cada um”. Saldanha acrescenta que por exigências mercadológicas da época (década de 30), o frevo e outros gêneros musicais populares adquiriram subdivisões de gênero que facilitavam uma melhor identificação junto à mídia.

O termo frevo vem do verbo ferver, sendo uma corruptela do mesmo, e remete a efervescência dos bailes populares. Os três gêneros do frevo são o frevo-de-rua, derivado da polca-marcha e do dobrado, unicamente instrumental; o frevo-canção, originário da ária, com introdução orquestral e seguida de uma canção; e o frevo-de-bloco, derivado dos ranchos de reis e do pastoril, executado por uma orquestra de “pau e cordas” e cantado. Esses gêneros, por sua vez, desdobram-se em outros subgêneros, dando origem a uma grande variedade de frevos.

Evolução

O rádio que começou mais elitista passou a dar mais espaço para a cultura popular a partir do final da década de 1920, tornando-se economicamente rentável e o principal meio de comunicação de massa. É quando, em Pernambuco, começa a divulgar o frevo. Segundo Saldanha, que não tira da indústria fonográfica parte dos méritos pela consolidação e divulgação do ritmo, a Rádio Clube de Pernambuco foi a principal divulgadora do frevo em seu momento áureo. “Foi fundamental o papel desempenhado por essa rádio e pelo Maestro Nelson Ferreira, seu diretor artístico e um dos grandes compositores do frevo”. Ferreira foi o responsável pela inclusão das revistas carnavalescas na programação da emissora, tendo lançado músicas, intérpretes e compositores. Além dele, Saldanha destaca também Capiba como um dos principais compositores, propagandistas e divulgadores do frevo.

O espaço regular na programação radiofônica conquistado pelo ritmo incentivou a composição e gravação de músicas escritas para o carnaval. Muito dinâmico, o ritmo continuou se modificando desde então e ainda hoje tem novidades. “O frevo é um gênero vivo e em constante transformação”, finaliza Saldanha.

Patrimônio imaterial na Sapucaí

Em Pernambuco, o ano de 2007 foi marcado pelas comemorações do centenário do frevo. Apesar de o surgimento do ritmo ter sido um processo longo e espontâneo, convencionou-se a data de seu nascimento no dia nove de fevereiro de 1907, quando o termo foi empregado pela primeira vez na mídia impressa, no Jornal Pequeno do Recife. Como parte das comemorações, o frevo foi declarado no ano passado patrimônio imaterial pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). A nomeação trouxe mais facilidade para as agremiações de frevo apresentarem projetos ao Ministério da Cultura e à iniciativa privada.

Este ano, o ritmo pernambucano será tema da quinta escola a desfilar no domingo, dia 3, na Marquês de Sapucaí. A Escola de Samba Mangueira homenageia o centenário do frevo com o enredo "100 anos do frevo, é de perder o sapato. Recife mandou me chamar...". Max Lopes, carnavalesco da escola e autor do enredo, explica sua escolha: “O frevo é um tema genuinamente brasileiro, tradicional, alegre, solto, irreverente e altamente carnavalizado" Lopes ainda argumenta que esse desfile vai provar que é possível unir vários aspectos da cultura brasileira, como o frevo e o samba. O desfile da Mangueira conta com o co-patrocínio da Prefeitura do Recife e fecha simbolicamente as comemorações do centenário.

Ciência X carnaval

Carnaval, frevo e ciência têm algo em comum? Pelo menos para o bloco “Com Ciência na Cabeça e Frevo no Pé”, sim. Desde 2005, o bloco desfila pelas ruas do Recife Antigo e pelas ladeiras de Olinda durante os festejos carnavalescos divulgando a ciência e seus principais ícones. Já foram homenageados Albert Einstein, Santos Dumont e o físico pernambucano José Leite Lopes. Neste ano, Charles Darwin, autor da Teoria da Evolução, se une à trupe de bonecos gigantes, manifestação tradicional do carnaval pernambucano.

Iniciativa conjunta do Espaço Ciência, das prefeituras de Olinda e de Recife, da Coordenadoria de Ensino de Ciências do Nordeste (CECINE) da Universidade Federal de Pernambuco e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC - PE), o bloco sai pela primeira vez este ano na quarta-feira, dia 30, às 20h, de frente da Torre Malakoff.

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