Creches e pré-escolas podem evitar a disseminação de infecções

terça-feira 8 de janeiro de 2008.
 
Revisão da literatura científica, elaborada por médicos da USP, reúne medidas simples e eficazes de prevenção que podem ser adotadas por creches e pré-escolas para evitar a transmissão de doenças infecciosas.

É só a criança ingressar na creche ou na pré-escola que as visitas ao pediatra aumentam. Conforme um artigo de revisão publicado no Jornal de Pediatria, crianças cuidadas em creches ou pré-escolas têm um risco duas ou três vezes maior de adquirir infecções. A partir de um levantamento da literatura científica, os autores da pesquisa, os médicos Maria Nesti e Moisés Goldbaum, ambos da Univesidade de São Paulo, reuniram medidas simples de prevenção que podem reverter esse quadro.

Segundo a pesquisa, creches e pré-escolas, públicas ou privadas, são ambientes que favorecem a transmissão de doenças. O comportamento das crianças pequenas facilita a disseminação: elas ficam em contato físico constante entre si e com os adultos e nem sempre lavam as mãos, que são levadas à boca, juntamente com qualquer objeto. Mãos, objetos e superfícies podem assim conter restos de urina, fezes, saliva e outras secreções que transmitem doenças.

Por isso, procedimentos simples como a utilização de roupa sobre as fraldas, a limpeza de brinquedos e superfícies e a lavagem das mãos com água e sabão são formas eficazes de se evitar a disseminação de doenças. As mãos devem ser lavadas antes de manipular ou servir alimentos, depois de ajudar crianças a usar o banheiro e após a troca de fraldas e o contato com fluidos corporais. O artigo ainda ressalta a importância de se usar lenços descartáveis para limpar os narizes, o material deve ser depois descartado em recipientes forrados com plásticos e tampados.

"A maioria das pessoas intui que crianças que freqüentam creches têm maior número de episódios de doença transmissível, mas desconhece o risco real e a efetividade das medidas simples de controle", diz Maria Nesti. "Realizamos uma pesquisa junto ao Departamento de Medicina Preventiva da USP, junto a creches anexas a hospitais (por ser maior a probabilidade de serem conhecidos os mecanismos de transmissão e controle de doenças, pela proximidade aos profissionais de saúde) no município de São Paulo e verificamos que há desconhecimento do tema". Para ela, é fundamental o treinamento rotineiro dos funcionários de creches e pré-escolas, com envolvimento de profissionais de saúde e administradores de saúde pública em níveis locais e nacionais.

"O primeiro passo é reconhecer o problema e a necessidade de mudança”, diz Maria. "Já existem esquemas de treinamento de funcionários de creches na [área de] educação; seria necessário o contato com a [área da] Saúde, para o treinamento básico de multiplicadores que a seguir reproduziriam as aulas, complementando o conteúdo já existente". Ela lembra que antigamente havia um auxiliar de saúde nas creches, cuja presença não é mais obrigatória, mas as próprias professoras poderiam ser treinadas, sem a necessidade de aumentar o pessoal.

De acordo com a médica, um dos maiores obstáculos ao programa é a crença de que a experiência caseira com crianças é suficiente para habilitar um funcionário de creche. Porém, as recomendações domésticas de higiene e limpeza não são suficientes para um ambiente onde se misturam crianças de diferentes casas. Na creche, o procedimento simples de trocar fraldas, por exemplo, deve ser feito de maneira diferente, segundo Nesti.

As medidas completas levantadas nesse trabalho podem ser acessadas no artigo “As creches e pré-escolas e as doenças transmissíveis” [http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0021-75572007000500004&lng=pt&nrm=isso], de Maria Nesti, e Moisés Goldbaum.

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