Cesárea aumenta risco de problemas respiratórios em bebês

quinta-feira 20 de dezembro de 2007.
 
Estudo dinamarquês publicado no British Medical Journal revela que bebês nascidos de cesarianas têm chances aumentadas em até quatro vezes de desenvolver problemas respiratórios. Somado a isso, estudos no Brasil afirmam que a cesariana resulta em maior risco de morbimortalidade materna, reforçando a necessidade de incentivos ao parto normal. Em 2006, menos de 20% de todos os nascimentos em hospitais particulares do país resultaram de parto normal.

Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Aarhus, Dinamarca, e publicado no dia 12 de dezembro no British Medical Journal (BMJ) aponta que o parto cesárea eletivo (sem haver trabalho de parto) realizado até a 40ª semana gestacional eleva o risco de problemas respiratórios no recém-nascido.

De acordo com o estudo, quanto mais cedo realiza-se a cesárea, maiores são os riscos de complicações pulmonares nos bebês. Cesarianas realizadas na 37ª semana gestacional acarretam quatro vezes mais problemas respiratórios que partos normais realizados na mesma semana. A proporção diminui para três vezes na 38ª semana e duas na 39ª. Comparando-se os riscos de parto cesárea eletivo da 37ª a 39ª semana gestacional em relação aos riscos da 40ª semana em partos normais, os valores sobem respectivamente para 7 vezes e 3 vezes na 37ª e 38ª semanas.

Na pesquisa foram avaliados dados de 34 mil cesáreas eletivas. O estudo sugere que a redução dos riscos decorrentes da cesariana eletiva pode ser obtida através da postergação da realização do parto eletivo para a 39ª semana gestacional. O trabalho chegou também à conclusão de que as cesáreas eletivas acarretam mais problemas do que as de emergência.

Fernando Perazzini Facchini, neonatologista e professor de pediatria da Faculdade de Medicina da Unicamp, confirma uma constatação que os médicos já faziam na prática. “O estudo traz uma estratificação interessante, por idade gestacional. A medida em que a gestação se aproxima de 40 semanas, a freqüência de riscos diminui”, explica. Para ele, essa é a grande novidade do estudo.

Contudo, Facchini lembra que os riscos respiratórios decorrentes do parto cesárea já são discutidos há muito tempo, em especial as implicações para o sistema respiratório, que precisa estar plenamente desenvolvido na hora do parto. “Como não se tem meio de avaliar isso, corre-se o risco de fazer a cesárea antes de se ter atingido a maturidade pulmonar”, diz. Os problemas decorrentes do nascimento antes dessa maturidade vão desde complicações leves, até quadros que podem levar o bebê à morte.

Ele informa, contudo, que esses problemas tem diminuído nos últimos anos graças à administração de corticóide à gestante antes do parto para acelerar a maturidade pulmonar do bebê. “Mas ainda não se sabe ao certo quais as implicações do uso dessa substância”, enfatiza.

Altos índices no Brasil

Ainda que muitos médicos, principalmente pediatras, apontem que a cesárea traz riscos não só para o bebê, mas também para a mãe, como maior probabilidade de ocorrência de infeções, sangramentos e ruptura uterina futura, esse tipo de parto ainda é excessivamente praticado. “A maior parte das indicações para cesárea no Brasil não convencem”, avalia Facchini. Para ele, os obstetras optam por esse tipo de parto por questões financeiras (a cesárea é mais bem remunerada que o parto normal) e de tempo. “Em muitos países, toda uma equipe obstétrica acompanha a paciente. O obstetra só entra em cena quando surge um problema. No Brasil, o obstetra trabalha sozinho. Se ele fizer um parto normal, corre o risco de passar oito horas acompanhando o trabalho de parto”, explica ele.

O Brasil apresenta uma das maiores taxas de cesariana do mundo. Apesar da recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) de que o percentual de cesarianas não deve ultrapassar 15% em nenhuma região do mundo, o país ainda tem índices bem acima desse número. Um estudo da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), realizado pelas pesquisadoras Claudia Soares Zouain e Jacqueline Alves Torres e apresentado no XIX Congresso Brasileiro de Perinatologia, que aconteceu em Fortaleza em novembro deste ano, revelou que esse percentual chegou a 80,5% nos hospitais particulares brasileiros em 2006. “Uma proporção de 80,5% de cesarianas configura-se como um grave problema de saúde pública, pois aumenta os riscos da ocorrência de eventos relacionados à morbimortalidade materna e neonatal”, aponta o estudo.

Outro estudo apresentado no mesmo congresso e de autoria de Clea Rodrigues Leone, da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, indica que o parto cesárea é mais freqüente em hospitais particulares, em mulheres que realizaram pré-natal, que tem escolaridade superior a 12 anos, idade entre 30 e 40 anos e esperam gêmeos. Por outro lado, mães com menos de 20 anos ou que dão a luz no período noturno tem maiores chances de realizarem parto normal. Já o trabalho da Universidade Federal de Campina Grande, realizado por Patricia Spara, com o título “Grau de escolaridade e sua relação com o número de filhos, freqüência de consultas no pré-natal e o tipo de parto” confirma também uma associação significativa entre o nível de instrução da gestante e a opção pelo parto cesárea, sendo mais freqüentes entre mulheres com ensino de nível médio ou superior.

“Na maior parte das vezes, não é a mãe que quer uma cesárea eletiva, mas sim o médico que induz a paciente a querer”, conclui Facchini. Para ele, muitos médicos vendem à paciente a idéia de que a cesárea é mais cômoda.

Tipo de parto não influenciaria vitalidade do bebê

Um estudo realizado no Brasil pela equipe de Samuel Kilsztajn, economista e coordenador do Laboratório de Economia Social de São Paulo, e publicado em agosto na revista Cadernos de Saúde Pública, da Fiocruz, aponta que o tipo de parto não influencia, a primeira vista, a vitalidade do bebê. Mas adverte que “o parto cesáreo apresenta maior risco de morbimortalidade materna”. Assim, já que o parto vaginal não está associado à baixa vitalidade do recém-nascido, “não há justificativa para a alarmante taxa de cesariana no Brasil”, analisa Kilsztajn.

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