NEPO debate reformulação do censo de 2010

sexta-feira 2 de novembro de 2007.
 
Que motivações levam uma pessoa a migrar? Qual é sua trajetória e história de vida? Estas e outras questões foram levantadas no V Encontro Nacional Sobre Migrações, que aconteceu em meados de outubro durante Ciclo de Debates organizado pelo Nepo da Unicamp.

Que motivações levam uma pessoa a migrar? Qual é sua trajetória e história de vida? Estas e outras questões foram levantadas no V Encontro Nacional Sobre Migrações, que aconteceu em meados de outubro, durante o Ciclo de Debates que comemora os 25 anos do Núcleo de Estudos da População (NEPO) da Unicamp.

Além dos pesquisadores do Nepo e de outros centros de pesquisa, estiveram presentes representantes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dentre eles, Alicia Bercovich. De acordo com a pesquisadora, três variáveis estão sendo revistas para o próximo censo: a migração interna e internacional, as populações indígenas e questões relativas a pessoas com deficiências.

Embora o censo demográfico sozinho não seja suficiente para responder muitas perguntas sobre a sociedade em que vivemos, de acordo com José Marcos Pinto da Cunha, pesquisador do NEPO, seria desejável que o censo de 2010 pudesse abranger algumas informações que ajudassem a respondê-las. Entre elas, o tempo de residência no atual domicílio, a atividade econômica na residência anterior para os migrantes, a emigração internacional, a mobilidade inter e intra urbana, ou as redes sociais de relacionamento, enfim, quesitos que permitam captar o movimento da pessoa.

Ainda segundo o pesquisador do NEPO, o censo é fonte de dados para diferentes pesquisadores, como geógrafos, economistas, sociólogos e demógrafos e por isso ele deve ser exaustivamente explorado. Deve-se investir no censo pois, por um lado, ele pode apresentar características gerais e apontar tendências; por outro, ele é a principal e mais completa fonte de dados sobre os movimentos migratórios no país, já que além de haver falta de outras fontes alternativas de obtenção de dados, há pouco financiamento para pesquisas específicas.

Para Cunha, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) reproduz o censo, mas sem a informação de representatividade municipal e sem avançar. “O IBGE - diz ele - precisa se conscientizar de que o censo é fundamental e deve ter informações mais abrangentes, mesmo sabendo que ele tem um conjunto de fragilidades que são intrínsecas à sua natureza”.

A migração pendular

Uma das questões discutidas no Encontro, e que de acordo com os pesquisadores deve ser revista para o censo 2010, é a migração pendular. Por definição, migrante pendular abrange a pessoa que se desloca para outro município diferente do de residência por um período de um dia a uma semana. Marley Deschamps, do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (IPARDES), apontou que a possibilidade de captar o movimento pendular da população foi possível quando o censo obteve informações sobre o local de residência dos indivíduos e o respectivo local de trabalho e/ou estudo nos Censos de 1980 e 2000 - o que não foi feito no Censo de 1991.

Ela afirma que a captação destes dados possibilita o cruzamento de informações sobre o movimento pendular e as demais características da população recenseada, como a escolaridade, a renda, o tipo de atividade, e os diferentes espaços de origem e destino. Deschamps ainda sinaliza as limitações do censo: “A informação censitária não permite, contudo, uma análise sobre a duração do percurso nem os meios de transportes utilizados”.

Cunha destaca que é importante contextualizar o fenômeno da pendularidade pois, sozinho, tem pouca autonomia como objeto de estudos. Por isso, é necessário comparar este fenômeno com, por exemplo, a “migração de retorno”. Do mesmo modo, Antonio Jardim, pesquisador do IBGE, aponta que a migração pendular, por ser um fenômeno complexo, está relacionado com as diferentes mobilidades espaciais da população, como: as migrações intra e inter regionais, as migrações cotidianas, a permanência no local de destino e os custos do deslocamento.

Ainda de acordo com Jardim, a definição tradicional de migrações pendulares que a vincula essencialmente ao mercado de trabalho e educacional, “produz modelos explicativos macroeconômicos e/ou sociológicos que não dão conta da realidade em sua totalidade; ao mesmo tempo, reduz os deslocamentos do local de residência ao local de trabalho excluindo as outras dimensões do cotidiano da população”. Antonio Tadeu Ribeiro de Carvalho, também do IBGE, apresentou visão semelhante: “a pendularidade vai além de trabalho e estudo. Minha proposta é criar sub-grupos para pensar o tema e apresentar propostas ao IBGE”.

Para Neide Patarra, pesquisadora do NEPO, é preciso tomar cuidado, no entanto, para não se usar o conceito da pendularidade para tentar esclarecer fenômenos que não podem ser explicados dessa forma, colocando nesta dimensão respostas a outras questões, como a temporalização, os espaços emergentes, as novas configurações.

Para a pesquisadora é preciso voltar à relação da habitação com o trabalho, porque se o conceito for expandido para qualquer tipo de deslocamento, ele acabará sendo diluído. “Nós precisamos aproveitar sim a abertura que o IBGE está nos dando, afirma a pesquisadora, mas precisamos cuidar sobre o tipo de fenômeno que estamos querendo resgatar, para que possamos avançar na problemática”.

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