A influencia de partículas suspensas no clima

quarta-feira 31 de outubro de 2007.
 
Dos mecanismos que influenciam o clima, a suspensão de partículas no ar é o que causa mais dúvidas aos pesquisadores. Dois projetos para 2008 pretendem entender como isso ocorre na floresta.

Dos mecanismos que influenciam o clima, os aerossóis (ou a suspensão de partículas no ar) são os que mais causam dúvidas aos pesquisadores. Sabe-se hoje que a emissão de partículas pelas queimadas na Amazônia, por exemplo, têm importante influência na formação de nuvens da região. Uma pesquisa internacional, coordenada pelo Experimento de Grande Escala Atmosfera-Biosfera da Amazônia (LBA, na sigla em inglês), pretende agora entender como ocorre a formação dos aerossóis pela floresta.

As alterações no uso da terra da Amazônia, como desmatamento, queimadas e os efeitos da urbanização, têm grande impacto na concentração de partículas suspensas. “Já sabemos que as emissões provocadas pelo homem influenciam o clima local”, disse o físico Theotonio Mendes Pauliquevis, do Instituto de Pesquisas Amazônicas (Inpa) e do LBA. “Mas é preciso compreender tanto a área perturbada, quando a não perturbada para poder fazer a comparação”.

A pesquisa deve começar em janeiro de 2008 e ocorrerá em duas fases, a primeira com duração de um mês e, a seguinte, de dois anos. Dois grandes projetos encabeçam a parceria de pesquisas. O AMAZE que deve fazer estudos mais detalhados num período curto sobre a composição natural dos aerossóis e química das moléculas, está sendo coordenado por Pauliquevis, pelo físico Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo (USP), e pelo químico da Universidade de Harvard, Scot Martin. Já a iniciativa européia, EUCAARI, ficará por dois anos na região coletando dados a fim de melhorar os modelos computacionais sobre os efeitos dos aerossóis no clima, reduzindo as incertezas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, sigla em inglês) em relação ao assunto. Os europeus farão o mesmo tipo de levantamento na Índia, China e África do Sul.

Segundo Pauliquevis, pela primeira vez uma estrutura grandiosa é levada ao interior da floresta para coletar os dados. “Esse tipo de pesquisa só funciona com a união de vários institutos, devido ao elevado custo dos equipamentos”, explicou o físico. Uma torre, confiscada de japoneses que capturavam borboletas para o tráfico de animais silvestres, foi doada pela polícia federal e será o centro de coleta de informações. Na borda de uma estrada, próximo à BR-174 que liga Manaus (AM) à Boa Vista (RR), foi instalado um container que abriga os equipamentos para tratar os dados coletados.

A principal dificuldade para fazer pesquisas duradouras nos confins da Amazônia é a manutenção dos equipamentos e o fornecimento de energia elétrica. A idéia inicial era colocar o container dentro da floresta, mas os pesquisadores convenceram-se que a tarefa seria impossível e mantiveram o container próximo ao local do estudo. “O maior destaque do projeto é termos conseguido montar uma grande infra-estrutura. A iniciativa tornará possíveis várias outras propostas científicas importantes para a região”, informou Pauliquevis.

Aerossóis e nuvens

Os aerossóis têm vital importância do ponto de vista climático e da composição química da atmosfera. Essas partículas suspensas no ar atuam na absorção e espalhamento da radiação solar, na formação das nuvens, na reciclagem dos nutrientes em ecossistemas, entre outras funções importantes. Elas são fundamentais para a formação da variedade de ambientes existentes no planeta.

No entanto, a ocupação desordenada da Amazônia, principalmente no “Arco do desmatamento” - região leste onde ocorre a maior parte da ocupação - tem aumentado o número de aerossóis na atmosfera. Embora em número bem menor, essas partículas também são emitidas naturalmente pelas florestas. As mais finas, menores que 2 micrômetros (µm) de diâmetro, são gases biogênicos emitidos pela vegetação e que sofrem reações químicas na atmosfera, mudando da fase gasosa para sólido ou líquido. Já as partículas mais grossas (maiores que 2 µm) são primárias, isto é, são fragmentos de folhas, grãos de pólen, bactérias e fungos suspensos no ar.

Ao chegarem à atmosfera, os aerossóis podem funcionar como núcleos de condensação, possibilitando a formação de nuvens. O vapor de água adere a essas partículas, ganhando peso para precipitar em forma de gotas. “As nuvens têm papel chave na questão climática, pois refletem a radiação solar de volta ao espaço, diminuindo a temperatura”, disse Pauliquevis.

Mas quando o ar está saturado dessas partículas ocorre o efeito inverso, as gotículas não conseguem se unir e são formadas nuvens gigantescas que não precipitam. Os pesquisadores constatam, por exemplo, uma grande bruma de aerossóis oriundo da fumaça formada nas queimadas do arco do desmatamento. “Essa névoa sobrevoa grande parte da América do Sul reduzindo a temperatura por onde passa”, conta Artaxo.

As nuvens influenciam ainda a fotossíntese das plantas. Quando em grande quantidade na atmosfera, os aerossóis bloqueiam a radiação solar por completo interrompendo também esse processo. Os pesquisadores acreditam que a complexidade dos aerossóis torna mais importantes os estudos voltados a eles. Sobre a emissão natural das partículas, será possível ter mais informações sobre como a floresta influencia e é influenciada pelo clima. Uma questão bastante atual nos dias de hoje.

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