Mexicanos propõem nova técnica para purificação do ouro

sexta-feira 26 de outubro de 2007.
 
Equipe de pesquisadores da Universidade Autônoma Metropolitana criaram um reator eletroquímico para purificar o ouro. Novo método promete ser menos prejudicial ao meio ambiente.

Um novo método de purificação de ouro está sendo desenvolvido por pesquisadores da Universidade Autônoma Metropolitana (UAM), na Cidade do México. O reator eletroquímico proposto pelos mexicanos promete ser mais eficiente e menos prejudicial ao meio ambiente.

Ainda em fase piloto, o projeto utiliza na reação química um composto molecular chamado tiouréia. Diferente do cianureto, usado nos processos atuais, a tiouréia se mistura em menor quantidade com a solução, permitindo que esta seja várias vezes reaproveitada. A reciclagem da solução reduz a produção de dejetos.

“Ao diminuir a quantidade de dejetos, são reduzidos também os custos para tratá-los”, explicou a engenheira química Gretchen Lapidus-Lavine, do Departamento de Engenharia de Processos Hidráulicos da UAM, uma das responsáveis pelo projeto. Além dela, trabalham na pesquisa o químico Ignácio González e o engenheiro químico José Luis Nava Montes de Oca, ambos do Departamento de Química da UAM.

Lavine explicou que, no processo convencional de purificação do ouro, é usada uma solução que contém um agente oxidante. O agente oxida o metal precioso, ou seja, retira elétrons do ouro deixando-no com carga positiva e separando-no dos outros minerais da mistura. Em seguida é aplicado um outro agente, normalmente o elemento zinco, que cede elétrons ao ouro fazendo que ele precipite em uma solução aquosa e seja coletado.

“Há mais de cem anos são usadas soluções de cianureto na primeira fase do processo. Elas funcionam muito bem, mas são extremamente tóxicas”, informou a engenheira química. Além disso, o cianureto se mistura muito rapidamente com outros íons metálicos diminuindo a possibilidade de reutilização da solução. É gerada, então, uma grande quantidade de dejetos tóxicos e a necessidade de tratá-los é muito maior.

Ao final da separação química é utilizado um reator eletroquímico para refinar o processo de purificação.

Força elétrica

O projeto sugerido pelos mexicanos utiliza o reator eletroquímico em todas as fases do processo. Inicialmente, o reator é usado para produzir o agente oxidante a partir da tiouréia - é formada uma tiouréia eletro-oxidada. Devido ao fato de a eletricidade ser indiretamente o agente oxidante, ao invés de uma outra substância química como o cianureto, é reduzida a contaminação da solução oxidante.

“A tiouréia em si não é novidade, mas anteriormente seu uso era prejudicado porque os outros agentes oxidantes a destruíam”, disse Lavine. “Ainda assim”, prosseguiu, “devido a sua seletividade, a tiouréia sempre foi reconhecida como um oxidante mais limpo, pois dificulta que a solução se ‘suje’ com os dejetos minerais e permite que a mesma solução seja aproveitada muitas vezes”. O principal objetivo foi, então, encontrar um agente oxidante que não destruísse a tiouréia.

O uso da eletricidade foi o melhor caminho. O agente oxidante é produzido in situ e de forma controlada, assegurando que a tiouréia não seja destruída. Ao final do processo, o reator coleta o ouro pelo processo de eletrodeposição. “O reator eletroquímico é bifuncional. É utilizado na primeira fase de oxidação e no fim da purificação”, defendeu Lavine, citando mais uma qualidade do processo: há uma grande economia de energia e de etapas do processo.

O tratamento final dos dejetos tóxicos é feito destruindo o composto. No caso do cianureto, é preciso transformá-lo em um composto menos tóxico. Custa mais, visto que é necessário tratar muita solução. “No nosso caso também temos que tratar a tiouréia, mas em menor quantidade, pois a fazemos circular muitas vezes na mesma solução”.

Segundo Lavine, a mineração é um dos setores mais importantes da economia mexicana. O ouro e a prata representam 23% das vendas da indústria mineradora. Para fazer o processo chegar em escala industrial é necessário passar por outras duas fases: planta piloto de operação contínua e de demonstração. “Estamos comprovando que o processo é viável economicamente para um mineral, mas falta provar para os outros”, concluiu.

No Brasil, a purificação do ouro é feita, em escala industrial, quase que exclusivamente pelo uso do cianeto. Em garimpos clandestinos, no entanto, o mercúrio é usado para amalgamar o pó do ouro em pedras. Posteriormente o mercúrio é queimado e vaporizado. A inalação desse vapor extremamente tóxico pode causar sérios problemas à saúde humana.

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