Inteligência Artificial

UFSCar traz projeto Common Sense do MIT ao Brasil

terça-feira 27 de setembro de 2005.
 
Imagine um cenário em que seu computador pessoal conheça seus hábitos e preferências a ponto de sugerir qual o melhor presente de aniversário para um amigo, ou que saiba quais assuntos você deve estudar mais. Não seria muito prático? Para tornar esse cenário possível, pesquisadores do mundo todo estão unidos no projeto Open Mind Common Sense Multilingual, trabalhando um conceito que começou no MediaLab do Instituto de Tecnologia de Massachussets (MIT), nos Estados Unidos, e foi trazido ao Brasil pelo Laboratório de Interação Avançada (LIA) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), para que uma versão brasileira do projeto seja desenvolvida.

Imagine um cenário em que seu computador pessoal conheça seus hábitos e preferências a ponto de sugerir qual o melhor presente de aniversário para um amigo, ou que saiba quais assuntos você deve estudar mais. Não seria muito prático? Para tornar esse cenário possível, pesquisadores do mundo todo estão unidos no projeto Open Mind Common Sense Multilingual, trabalhando um conceito que começou no MediaLab do Instituto de Tecnologia de Massachussets (MIT), nos Estados Unidos, e foi trazido ao Brasil pelo Laboratório de Interação Avançada (LIA) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), para que uma versão brasileira do projeto seja desenvolvida.

Embora muitos cientistas acreditem que senso comum e ciência sejam incompatíveis, esses pesquisadores pretendem que a partir do conhecimento do mundo, de fatos do dia a dia e de valores culturais, os computadores possam se tornar mais amigáveis e também mais úteis para o homem em seu cotidiano, como por exemplo, no preparo de uma aula. Segundo Júnia Coutinho Anacleto Silva, coordenadora do LIA, os computadores de hoje não conseguem pensar coisas simples, tais como as que uma criança de três anos é capaz de pensar. E um dos fatores para isso é que eles não possuem informações básicas sobre o mundo, como a de que o céu é azul durante o dia e escuro à noite.

A proposta é a de se formar um banco de dados com essas informações a partir de contribuições de voluntários pela Internet. Para isso, um site foi disponibilizado pelo LIA, onde qualquer internauta pode colaborar com o projeto, oferecendo seu conhecimento. Depois de se cadastrar no site, a pessoa responde a perguntas simples, como “O que se pode encontrar no supermercado?” ou, “Deslocar-se é sinônimo de?”, e pode, então, passar a fazer contribuições sempre que quiser.

As respostas passam pela aprovação dos pesquisadores, que excluem palavrões, erros de grafia, e conjuntos de caracteres sem sentido. Nessa fase, a verificação das respostas está sendo feita manualmente pelo grupo. Depois de aprovadas, as respostas fornecidas pelos usuários são usadas para retroalimentar o sistema, ou seja, compor novas frases que serão usadas para conseguir novos dados. Em operação desde setembro de 2000, nos Estados Unidos, foram coletados 750 mil fatos para a base de dados do projeto. No Brasil, com um mês de operação, o site já coletou 64 mil.

O que o laboratório brasileiro está se propondo a fazer é observar as diferenças de senso comum entre o Brasil e outros países, além das diferenças entre as próprias regiões do país. “Nós acreditamos que as diferenças culturais são muito importantes, por isso é tão necessária a participação de pessoas de diversos lugares do país”, explica a pesquisadora. A coleta tornou-se uma corrida de quem contribui mais. Há uma lista no site divulgando as cidades e pessoas que mais contribuem e há participantes de todas as faixas etárias. “O cadastrado mais novo tem oito anos, e entre os mais velhos há um senhor de 64, que é um dos participantes mais assíduos”, acrescenta.

“As aplicações dessa base de dados são muitas”, explica Júnia Silva. O banco de dados pode ajudar a comunicação entre pessoas de diferentes culturas e idiomas de várias formas. Seria possível, por exemplo, melhorar os sistemas de tradução simultânea e a comunicação escrita, porque munido de conhecimento de senso comum, o tradutor pode ir além de traduzir as palavras, inserindo-as no contexto do usuário e fazendo sugestões. “Ao fazer um convite por e-mail para uma pessoa de uma outra cultura, o banco de dados pode contribuir informando quais são as preferências e horários no país do convidado”, exemplifica a professora da UFSCar.

As aplicações invadem até mesmo funções lúdicas. Uma delas é o Common Sense Disk Jockey (CSDJ), um assistente de DJ que usa o banco de dados de senso comum para ajudar a escolher a música mais adequada para um público específico. Uma câmera conectada ao aplicativo captura imagens do público. O CSDJ observa essa imagem e a partir do banco de dados de senso comum busca entender quem são as pessoas e como elas estão vestidas, para fazer a sugestão de seleção musical que melhor se aplicaria a esse público específico. Além disso, o aplicativo também é capaz de aprender, e pode trocar a seleção se a resposta do público à música não for positiva.

O destaque no trabalho brasileiro é a coleta de informações sobre saúde, que terão como finalidade montar um curso de enfermagem a distância. O questionário aborda questões sobre tratamento de doentes em domicílio, como: “Estar saudável ajuda no cuidado da pessoa doente porque...", ou "Para se tratar de uma pessoa doente em casa é preciso...". Os pesquisadores afirmam que com o acesso ao que é conhecimento comum sobre o tema, pode-se apoiar os professores no ensino, adequando o conteúdo ao conhecimento prévio dos alunos e possibilitando o uso de uma linguagem mais comum entre professor e aluno, o que acarretaria a otimização do tempo de preparação e exposição do material. Júnia Silva afirma que o banco poderá futuramente ser usado também para o apoio direto aos alunos, para busca de informações e montagem do conteúdo de acordo com o perfil de cada um.

Esses são exemplos de aplicações que podem ser alcançadas em pouco tempo, entretanto há pesquisadores que vislumbram um uso mais sofisticado desse banco de dados em um futuro um pouco mais distante. O prospecto dos pesquisadores de inteligência artificial é de que em 30 anos já será possível comprar um computador que tenha uma percepção do mundo parecida com a dos homens, ou seja, computadores reflectivos, que não só saibam somar e subtrair, mas também entendam o que é um número. E, principalmente, que reflitam sobre o porquê algum processo está errado, ao invés de simplesmente substituir o método que originou o erro. Nesse momento estaremos próximos de ter máquinas tão criativas como os seres humanos.

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