Cocaína causa morte de células secretoras de dopamina, o mensageiro do bem-estar

terça-feira 23 de outubro de 2007.
 
Pesquisadora da USP mostra que a cocaína ativa processos causadores da morte celular. Fenômeno pode ajudar a explicar a degeneração cerebral que ocorre nos usuários da droga e a desenvolver terapias

É a intensa e instantânea sensação de euforia e excitação que torna repetitivo e compulsivo o uso da cocaína pelos viciados. Essa sensação, porém,tem um custo. Além dos já conhecidos danos neurológicos decorrentes do abuso da cocaína, a farmacêutica Lucília Brocado Lepsch, pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, verificou que a cocaína causa também morte de células secretoras de dopamina, o transmissor do bem-estar.

Lucília observou que a cocaína induz o aumento da atividade e da formação da caspase 3, uma enzima responsável por provocar a morte celular. Além disso, a morte celular foi agravada após o bloqueio de uma outra proteína da célula, o fator NF-kB (NF-kappaB), que poderia atuar, conforme sugere Lucília, protegendo a célula da morte.

Ao contrário do que pode parecer, a morte celular programada, na qual as caspases são os principais atuantes, é essencial para a formação e manutenção do organismo. Na fase embrionária, a morte celular permite o ajuste do formato dos nossos órgãos ao eliminar as células que acabam se tornando redundantes. Por outro lado, de acordo com a pesquisa de Lucília, a cocaína ativa indevidamente esse processo, um achado que, segundo a pesquisadora, contribui para a compreensão dos mecanismos de morte celular regulados pela cocaína. Outro benefício da pesquisa está no desenvolvimento de novas terapias para dependentes, que possam ajudar a interromper o desencadeamento dos processos degenerativos.

Para o estudo, Lucília utilizou células PC12 de rato, que representam para os cientistas modelos de células do cérebro. Elas liberam dopamina e têm as mesmas características das células cerebrais humanas que secretam esse transmissor - responsável pela sensação de bem-estar. No cérebro, a cocaína impede a remoção (recaptura) do excesso de dopamina, intensificando, dessa forma, sua quantidade e, portanto, seus efeitos.

Mas mesmo a busca pelos efeitos euforizantes da cocaína acabam frustrada pois logo causa um resultado contrário. Ocorre que a euforia é logo seguida pela depressão - associada, no uso crônico, com a interrupção prolongada da recaptura de dopamina, que acarreta sua escassez. O cérebro, ávido pela dopamina que agora lhe falta, sensibiliza-se, o que estimula a repetição do uso da droga. Se esse processo é acompanhado, ainda, de efeitos degenerativos em função da morte das células que liberam dopamina, agravando a falta de suprimento cerebral do transmissor, pode-se esperar que o usuário, em busca do efeito que seu organismo não é mais capaz de prover, apele para doses cada vez mais altas de cocaína.

O aumento da dose de cocaína nessas circunstâncias pode ocasionar confusão, perda da associação de idéias, comportamento anti-social e agressividade. Com o uso contínuo, também podem aparecer delírios, alucinações, paranóia e tendências suicidas.

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