Arqueologia recupera história de povos indígenas no nordeste de São Paulo

quarta-feira 12 de setembro de 2007.
 
A historiadora e arqueóloga Camila Azevedo de Moraes, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (USP), analisou 6.500 peças de cerâmicas Tupi Guarani com a idéia de rastrear todo o material dos grupos que habitaram o nordeste de São Paulo e reconstruir parte de sua história. As peças estudadas incluem as que já estavam em museus e coleções particulares nas cidades da região, e também as coletadas em escavações realizadas pela própria pesquisadora.

A região do médio e alto vale do rio Mogi Guaçu, localizada a cerca de 200 km da capital paulista, guarda um verdadeiro tesouro arqueológico que pode resgatar a história dos povos indígenas que ali habitaram. A historiadora e arqueóloga Camila Azevedo de Moraes, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (USP), analisou 6.500 peças de cerâmicas Tupi Guarani com a idéia de rastrear todo o material dos grupos que habitaram o nordeste de São Paulo e reconstruir parte de sua história. As peças estudadas incluem as que já estavam em museus e coleções particulares nas cidades da região, e também as coletadas em escavações realizadas pela própria pesquisadora.

Exterminados por doenças e guerras, sem registros de migrações e sem relatos escritos sobre seus costumes, os grupos Tupi que ocuparam essa porção do território paulista seriam esquecidos pela história se não tivessem deixado parte de sua cultura intacta: fragmentos de artefatos de cerâmica e outras peças que podem ajudar a recontar como foi sua vida na região. “Existem relatos dos séculos XVI e XVII que falam dos grupos Tupi que viviam no litoral e na atual cidade de São Paulo, mas infelizmente temos poucos relatos escritos que falem a respeito dos grupos Tupi do nordeste de São Paulo. Nesse caso, essa história será contada apenas pela arqueologia”, explica a pesquisadora.

A região pesquisada no vale do rio Mogi Guaçu compreende especialmente as cidades de Mogi Guaçu, Pirassununga e São Simão, onde foram encontrados a maioria dos sítios arqueológicos. A área é tida como uma fronteira entre grupos diversos: os Guarani, que habitavam ao sul, os Tupiniquim e os Tupinambá, que ficavam mais ao leste. Apesar de pertencerem ao mesmo tronco lingüístico (Tupi), esses povos possuíam uma identidade cultural própria e costumes particulares. Estima-se que os grupos Tupi ocuparam a área durante pelo menos 500 anos (de 1000 a 500 anos atrás), ao longo dos quais as mudanças culturais e a interação com outros grupos que não eram Tupi resultaram em transformações de sua cultura artefatual, ou seja, na mudança do material, da decoração e do modo de fazer os artefatos. “Por outro lado, a continuidade de alguns traços permitiram a associação desse material com a tradição arqueológica Tupi Guarani”, afirma Moraes.

Grande parte do material estudado é formada por fragmentos de vasilhas de cerâmicas, associadas ao armazenamento, produção e consumo de alimentos e bebidas, além de algumas urnas funerárias. De modo geral, a cerâmica Tupi Guarani se caracterizava por grandes vasilhas e tigelas com decorações pintadas ou decorações tecnicamente chamadas de plásticas - feitas com os dedos, quando a argila ainda pode ser moldada, antes de ser queimada.

A análise dessas peças permitiu fazer um rastreamento do comportamento desses povos. Foi possível constatar, por exemplo, que três diferentes sítios apresentavam peças e características de ocupação bastante semelhantes, revelando o provável deslocamento de um mesmo grupo indígena dentro de seu território. Também foi possível analisar que o único sítio associado à bacia do Rio Pardo - ocupado há cerca de 1000 anos atrás -, apresenta similaridade com alguns sítios do Alto Mogi de datações bem mais recentes - aproximadamente 600 anos atrás -, revelando uma continuidade cultural e uma permanência considerável desses grupos no vale desses rios. Além disso, algumas das peças analisadas deixam transparecer os processos de contato entre os indígenas e os portugueses: alguns artefatos, apesar de conservarem a técnica indígena na produção, trazem na forma ou na decoração a influência européia. Essas peças não são quantitativamente expressivas, mas mostram redes de contato antes mesmo da colonização da região, as quais só puderam ser abordadas a partir da arqueologia.

A região está se revelando um campo de trabalho promissor para arqueólogos, historiadores, antropólogos e outros estudiosos da cultura indígena, com bastante material ainda a ser estudado que pode preencher lacunas na história dos povos indígenas brasileiros. O estudo deste território, no nordeste de São Paulo, além de aprofundar o conhecimento de seus sítios arqueológicos e da cultura e os costumes dos povos que ali habitaram, também contribui para a conservação desse patrimônio cultural brasileiro.

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