Abelhas desaparecem das colméias nos Estados Unidos

terça-feira 10 de julho de 2007.
 
Até agora, a ciência não apontou a causa do sumiço das abelhas. Há apenas uma série de especulações, umas mais plausíveis que outras, mas nenhuma definitiva. Diversas causas aparentes dificultam a solução do problema, que pode provocar prejuízos bilionários.

“Adeus e obrigado pelos peixes!” Essa foi a mensagem deixada pelos golfinhos ao desaparecerem do planeta na comédia literária do inglês Douglas Adams. A obra, parte da série “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, narra o desaparecimento súbito da espécie, que teria abandonado o planeta ao descobrir que ele seria destruído. Em proporções reduzidas, ainda que impressionantes, a vida imitou a arte nos Estados Unidos. Este ano, apicultores norte-americanos de 22 estados ficaram sem a maior parte da sua criação, sendo que alguns perderam quase todas as suas abelhas. Colméias quase vazias com pouquíssimos insetos adultos eram a única pista deixada pelo mal que foi batizado de CCD (algo como Distúrbio do Colapso das Colônias, em inglês). O problema foi detectado pela primeira vez no fim do ano passado e já foi encontrado também na Europa.

Até agora, a ciência não apontou a causa do problema. Há apenas uma série de especulações, umas mais plausíveis que outras, mas nenhuma definitiva. Determinar uma doença ou parasita como causa do CCD, por exemplo, tem sido uma das tarefas mais difíceis dos especialistas. Isso porque as abelhas sofrem de um grande número de patologias. Uma infecção viral que causa diarréia, um ácaro que se instala no sistema respiratório, e até bactérias e fungos que provocam sintomas diversos em pupas (estágio posterior ao de larvas) e em abelhas adultas foram algumas das possíveis causas apontadas, mas que não conseguem explicar todo o problema. A ausência de corpos de insetos e de vestígios de parasitas nas colméias abandonadas complicam ainda mais.

Com tantos inimigos naturais, seria normal que entrassem para a lista de suspeitos os pesticidas aplicados pelos apicultores em suas criações. O Amitraz, por exemplo, é a terceira geração de um pesticida usado para combater o V.destructor, um pequeno besouro que se disseminou por todos os Estados Unidos. A praga desenvolveu resistência aos seus dois antecessores, e os efeitos do Amitraz ainda não são conhecidos. Benjamin Oldroyd, pesquisador do Laboratório de Comportamento Social e Genética de Insetos da Universidade de Sidnei, na Austrália, aponta que até os apicultores que optam por controles mais “orgânicos”, como a fumigação por ácido fólico, por exemplo, correm o risco de ter uma ação menos eficaz contra o parasita e ainda produzir um efeito mais tóxico sobre as abelhas.

Outro vilão sob suspeita são os defensivos químicos das lavouras. A produção agrícola norte-americana é quase totalmente dependente de compostos que são modificados constantemente, a fim de vencer a resistência desenvolvida pelas pragas. Novos produtos químicos significam novos efeitos colaterais. O geneticista norte-americano David de Jong, do Departamento de Genética da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto, tem experiência nesse tipo de ação química. Especialista em abelhas, Jong presenciou um caso de mortalidade em massa desses insetos causada por defensivos agrícolas durante os anos 1970 nos Estados Unidos. Na época, como pesquisador da Universidade de Cornell, em Nova York, Jong foi incumbido pelo governo do seu país de treinar os técnicos federais que deveriam avaliar as colméias vazias. Caso a mortalidade tivesse sido causada realmente pelos defensivos das lavouras, o apicultor teria direito a uma indenização do governo.

O pesquisador explica como se faz a avaliação da colméia vazia: “Quando o inseticida é mais fraco, a abelha volta à colméia, mas acaba matando as abelhas mais novas, que não têm resistência ao produto. Com pesticidas mais fortes, o inseto morre no campo e nem volta para a colméia, mas as abelhas jovens ainda têm que estar lá”, esclarece. Este segundo caso se aproxima do CCD, mas nada se provou até o momento. “Os inseticidas estão ficando cada vez mais tóxicos para os insetos e menos nocivos para as pessoas”, alerta Jong. O especialista em patologia apícola Dejair Message, da Universidade Federal de Viçoca (MG), descobriu que doses subletais de inseticidas podem causar desorientação nas abelhas e impedir o seu retorno à colônia, o que pode ser outro sintoma do CCD.

As plantações geneticamente modificadas ou transgênicas têm sido o alvo preferido dos ambientalistas para receber a culpa pelo sumiço das abelhas, mas poucas evidências corroboram essa tese. A suspeita recaiu sobre plantações trasngênicas norte-americanas de soja, algodão e milho que tiveram seus genomas modificados a fim de desenvolver uma proteína com fortes propriedades inseticidas. Oldroyd acha difícil que essa proteína possa representar uma ameaça às abelhas e derruba a suposição citando o estado de Illinois, onde as lavouras transgênicas ocupam áreas enormes e não há nenhum caso de CCD registrado por lá.

Há ainda os problemas de manejo que têm colocado os insetos em situações extremas de estresse. Com a queda do valor de mercado do mel, muitos apicultores têm encontrado outras fontes de renda, entre elas, o aluguel das colônias para a polinização de plantações. As amendoeiras, por exemplo, dependem 100% das abelhas para serem polinizadas. Retirar as colméias de seu local de origem e transportá-las em caminhões gera problemas de umidade, falta de espaço, doenças causadas por confinamento e dificuldade de adaptação ao novo horário climático, o popular “jetlag” dos humanos.

Além dessas possíveis causas, Oldroyd cita também o problema do resfriamento do ninho. De maneira surpreendente, as abelhas mantêm a temperatura de suas ninhadas a 34,5º.C, com uma variação de apenas 0,5º.C. Uma incubação fora dessa estreita faixa gera abelhas aparentemente saudáveis, segundo o especialista australiano, mas que apresentam deficiências de aprendizado e memória. Oldroyd acredita que criando em laboratório colônias em temperaturas ideais e outras com temperaturas abaixo do ideal, os sintomas do CCD aparecerão nessas últimas. Contudo, o pesquisador vê o problema como uma síndrome causada por múltiplos fatores e não por um causador isolado.

Mesmo sem conhecer exatamente as causas do CCD é possível dimensionar seus efeitos que vão muito além da falta de mel e dos demais produtos apícolas. No ano 2000, as plantações polinizadas por abelhas nos Estados Unidos representavam 14,6 bilhões de dólares e o prejuízo ambiental pode ir muito além dos números. “Aqui no Brasil, as abelhas são responsáveis por 90% da polinização da Mata Atlântica, por exemplo” explica o biólogo especialista em abelhas José Benedito Balestieri, da Universidade Federal da Grande Dourados, em Mato Grosso do Sul. “O desaparecimento das abelhas por aqui causaria também o desaparecimento de vegetações importantes e com elas, as várias espécies que nelas vivem”, completa.

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