Educação Ambiental

Efetividade das redes de Educação Ambiental depende de gestão e recursos

segunda-feira 26 de setembro de 2005.
 
Desenvolver e difundir a cultura de rede é um desafio a ser enfrentado também pela educação ambiental, afinal, virtuais ou presenciais, as redes podem ser um espaço para troca de experiências, discussões e mobilização em torno de ações e proposições de políticas públicas, inclusive sobre temáticas ambientais. Esse foi o tom de um dos debates apresentados durante o I Encontro de Educação Ambiental, que ocorreu entre os dias 23 e 25 de setembro, na Unesp (campus de Botucatu-SP).

Desenvolver e difundir a cultura de rede é um desafio a ser enfrentado também pela educação ambiental, afinal, virtuais ou presenciais, as redes podem ser um espaço para a troca de experiências, discussão e mobilização em torno de ações e proposições de políticas públicas, inclusive sobre temáticas ambientais. Esse foi o tom de um dos debates apresentados durante o I Encontro de Educação Ambiental, que ocorreu entre os dias 23 e 25 de setembro, na Unesp (campus de Botucatu).

O papel das redes na concretização de novas conquistas e na ampliação das já alcançadas pelos educadores ambientais é algo que vem sendo sinalizado e incorporado no Brasil, principalmente a partir da criação da Rede Brasileira de Educação Ambiental (Rebea), ocorrida durante os Fóruns de Educação Ambiental do início dos anos 90, em São Paulo, numa articulação de ongs, universidades e órgãos governamentais. A expansão dessa idéia concretizou-se nas atuais redes estaduais espalhadas pelo país e articuladas pela REBEA. Organizada a partir desta estrutura, a educação ambiental encontra atualmente como principais metas a promoção da inclusão de novos membros e instituições e a obtenção de recursos para gestão.

Segundo Patrícia Otero, representante da Rede Paulista de Educação Ambiental (Repea), as características típicas das redes - como horizontalidade, descentralização, flexibilidade e estímulo à autonomia - servem de contraponto à estrutura hierárquica que marca as instituições tradicionais (como as governamentais). “Estes princípios da estrutura das redes sociais permitem acreditar que elas são capazes de nos ajudar a tornar o mundo mais justo, mais equilibrado e mais saudável de se viver”, declarou Otero.

A representante da rede brasileira (Rebea), Vivianne Amaral, salientou, no entanto, que é preciso superar a visão romântica de que os princípios que regem as redes se concretizam espontaneamente. “Quando se opera uma rede (papel assumido por ela na Rede Brasileira entre 1999 e 2004), esta visão é insustentável. É preciso entender como o padrão organizacional da rede funciona, caso contrário, não vai acontecer nada em relação à autonomia, as multi-lideranças não vão aparecer, a comunicação não vai se dar, não vai haver trocas entre as pessoas”, destacou ela. Já para Haydée Oliveira, representante da Rede Universitária de Programa de Educação Ambiental (Rupea), a descentralidade das redes é, de certa forma ilusória. “São necessárias pessoas à frente deste processo de organização”, defende ela.

Para que isso ocorra, Vivianne Amaral argumentou que é fundamental que se obtenham recursos financeiros, garantindo a gestão e sustentação das redes. “Se não houver recursos para fazer encontros, profissionalizar a comunicação, fazer publicações e ter pessoas pagas para fazer a manutenção da rede, as redes vivem, mas vivem na sobrevida. Viram listas de discussão e ficam reduzidas no seu potencial de desenvolvimento da cidadania e no apoio à implantação da Política Nacional de Educação Ambiental”, disse Amaral.

As três debatedores do tema concordam que a organização em rede é fundamental para garantir um processo democrático de participação visando mudanças na sociedade, e como exemplo da importância dos recursos para as redes, Amaral citou o projeto “Tecendo cidadania”. Desenvolvido entre 2002 a 2004, com recursos provenientes do Fundo Nacional do Meio Ambiente (FNMA), o projeto permitiu a ampliação da equipe gestora e a profissionalização da rede e teve como resultados a expansão do número de redes integrantes da rede brasileira e realização de oficinas de formação e encontros presenciais. A rede paulista também contou com recursos provenientes do mesmo edital do FNMA para desenvolver o projeto “Fortalecendo a REPEA” e, segundo Patrícia Otero, oficinas de capacitação sobre cultura de rede e uso de ferramentas de comunicação estiveram entre as principais ações realizadas. Assim, os recursos para estes dois projetos auxiliaram também a enfrentar outros dois grandes desafios das redes: o desenvolvimento e difusão da cultura de rede e de seus valores, e a inclusão (inclusive digital) de novos membros e grupos.

O debate ocorrido em Botucatu ecoa em parte as discussões teóricas acerca do papel e da configuração das redes. O otimismo sobre essa forma de organização é uma visão compartilhada pelo filósofo Pierre Lévy que a relaciona com o desenvolvimento da cidadania. Já o sociólogo Manuel Castells, por sua vez, alerta em sua obra A Era da Informação, que a promoção da mudança social na sociedade em rede é um processo complexo, devido a grande capacidade das redes de absorver novos insumos, acrescentando-os à própria rede e neutralizando-os.

Para saber mais:

- Rede Brasileira de Educação Ambiental (REBEA)

- Rede Paulista de Educação Ambiental (REPEA)

- Rede Universitária de Programa de Educação Ambiental (RUPEA)

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