Pesquisa reafirma que Amazônia absorve carbono

quarta-feira 30 de maio de 2007.
 
Plínio Barbosa de Camargo, do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da USP, apresentou resultados de suas pesquisas no Fórum sobre "Agricultura Sustentável na Amazônia" na Unicamp. Ele afirma que Amazônia atualmente absorve carbono, contradizendo as previsões de que a Amazônia tende a desaparecer, ou virar cerrado, com os efeitos do aquecimento global.

No último dia 24, no auditório da Biblioteca César Lattes da Unicamp, foi realizado um Fórum Permanente de Agronegócios sobre “Agricultura Sustentável na Amazônia”. As palestras abordaram temas como a segurança alimentar da população brasileira, os entraves do desenvolvimento da agricultura sustentável na região e o papel da floresta equatorial na manutenção do equilíbrio do clima global, através dos ciclos de carbono. Com relação a este último tópico, destacou-se a apresentação do pesquisador do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da USP, Plínio Barbosa de Camargo, que discutiu a dinâmica do carbono no solo e vegetação da floresta amazônica.

Na mesa redonda “O mundo da Amazônia”, Camargo apresentou resultados de duas pesquisas sob sua coordenação: “Dinâmica do carbono em solos e vegetação em transectos na Amazônia”, que começou em 1999, e “Respiração de ecossistema florestal na região amazônica”, iniciada em 2003. “Podemos afirmar, sem medo de errar, que a Amazônia atualmente absorve carbono na ordem de 1 tonelada por hectare”. Essa afirmação contradiz todas as previsões colocadas nos últimos meses pela mídia de que a Amazônia tende a desaparecer, ou virar cerrado, com os efeitos do aquecimento global. “Se há mais carbono na atmosfera, tem mais alimento para a fotossíntese. Nesse caso, a Amazônia poderá dobrar de tamanho”, afirmou o pesquisador.

Duas técnicas são mais utilizadas para mensurar o fluxo de CO2 na região que envolve a pesquisa de Camargo. A menos comum envolve o uso dos satélites de observação. Essa técnica consiste em traçar uma estimativa da altura das árvores e do tamanho da copa para ter uma noção da quantidade de biomassa. Na outra, emprega-se as torres de fluxo de carbono, onde é possível medir a quantidade de CO2 na atmosfera. Essa técnica é a mais utilizada na Amazônia. “De acordo com a linha ecológica de medida de carbono, a Amazônia absorve pouco carbono. Mas o método da torre mostra que a Amazônia pode absorver de 7 a 8 toneladas de carbono por hectare”, afirmou Camargo. No entanto, ele destaca que em função das diferenças entre espécies e idades das árvores, foram constatados volumes diferentes na absorção de carbono pelas árvores. “As árvores de Santarém [no Pará], por exemplo, apresentam maior absorção em alguns anos e, em outros, maior emissão de carbono”.

Os resultados mostram os avanços do conhecimento científico e tecnológico sobre os mecanismos que funcionam como integradores dos elementos naturais presentes na Amazônia. “Apesar das técnicas usadas na medição do ciclo de carbono serem recentes, já permitem apontar alguns resultados preliminares”, avalia Camargo. Existem muitas pesquisas e sobre a contribuição da floresta para a atmosfera, que buscam entender qual é o papel da Amazônia no ciclo global do carbono. A definição do papel da floresta - de emissora ou captadora de carbono - é um importante elemento na elaboração de políticas que minimizem os impactos do aquecimento global, na avaliação do peso que têm os países na emissão de gases estufa, bem como na determinação de como funcionará o mercado de créditos de carbono.

Atualmente, o Brasil está classificado como o quarto maior emissor de carbono na atmosfera, quando os métodos para esse cálculo incluem as queimadas de florestas. Segundo dados de 2001 do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), entre 15 e 20 mil quilômetros quadrados ao ano, são queimados, somente na Amazônia brasileira. Entretanto, uma série de estudos recentes sobre o papel da Amazônia no ciclo de carbono abre a possibilidade de que as florestas tropicais estejam desempenhando um papel relevante como sumidouros de CO2 (veja artigo).

Desenvolvendo pesquisas a mais de dez anos na região amazônica, Camargo não tem dúvidas de que as atividades antrópicas têm aumentado a concentração da de CO2 na atmosfera. Segundo ele, a concentração atual desse gás está na ordem de 382 partes por milhão (ppm). Em 2005, segundo a organização de pesquisa Worldwatch Institute, essa concentração era de 379,6 ppm, um crescimento de 2,2 ppm em relação a 2004.

Agricultura sustentável na Amazônia

Entre os aspectos que nortearam o dia de discussões no Fórum, destacou-se a realidade ímpar que contribui para formar o mosaico que caracteriza a maior floresta tropical do mundo: a sua enorme biodiversidade; os interesses de empresários internacionais e nacionais; a atuação dos ambientalistas; o papel do governo; e a participação das comunidades locais. A questão que norteou o Fórum estava relacionada à exploração: como é possível degradar o mínimo, extraindo o máximo de riquezas da floresta? Entre as saídas apontadas, o desalento de que ou a exploração será feita de forma seletiva, controlada por uma elite econômica, ou a degradação é inevitável. O evento foi organizado pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação (Nepa) e o Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (Nepam), ambos da Unicamp.

Leia mais:

Concentração de Carbono na atmosfera bate recorde

Agricultura e aquecimento global

Responder a esta matéria