Brasil participa de testes de vacinas contra Aids

terça-feira 27 de fevereiro de 2007.
 
A partir de um estudo sobre participação do Brasil nos testes de vacinas preventivas contra a Aids, Léa Velho, do Departamento de Política Científica e Tecnológica da Unicamp, conclui que o país tem papel relevante nessa rede internacional de pesquisas.

A partir de um estudo sobre participação do Brasil nos testes de vacinas preventivas contra a Aids, Léa Velho, do Departamento de Política Científica e Tecnológica da Unicamp, conclui que o país tem papel relevante nessa rede internacional de pesquisas. A pesquisa mostrou que é possível articular P&D, governo, organizações e sociedade para inovar, definindo o Brasil como grande contribuidor ao combate da AIDS no mundo.

“Esse caso consegue unir os diferentes atores e organizações, trazendo desenvolvimento. A América Latina, de modo geral, nunca conseguiu esse link dos atores na inovação ou participações internacionais e sempre houve marginalização das instituições científicas. O Brasil é um dos países que, durante décadas, luta para mudar esse cenário”, afirma Velho.

Os testes de vacinas contra HIV no Brasil foram precedidos por políticas nacionais e são parte de uma estratégia que inclui a capacidade de pesquisa em saúde, tecnologia para fabricar as drogas, acordos do governo com o tratamento mundial da Aids, forte campanha de prevenção enfatizando riscos de comportamento, assim como organização da sociedade para defender os direitos dos portadores e conseguir voluntários para pesquisa.

A rápida disseminação do HIV na população mundial levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a criar um programa para avaliação da eficácia de vacinas em diferentes áreas geográficas. O Brasil foi um dos países selecionados, dando início a sua integração na rede internacional de combate à epidemia, no início da década de 90. Essa participação global verifica a eficácia da vacina para os vários subtipos de vírus e para a as particularidades genéticas dos diversos grupos de populações do Brasil, um dos mais miscigenados do mundo.

O estudo de Velho apontou que a responsabilidade brasileira em relação à Aids trouxe participação em importantes iniciativas internacionais, ações de cooperação bilaterais e iniciativas para sustentar e transferir tecnologias para países pobres. Essas capacidades incluem planejamento, administração, monitoramento, mobilização social e outras habilidades necessárias à implementação do Programa Nacional da Aids, além de capacidades científicas, técnicas e produtivas.

Trata-se de uma oportunidade para treinar pessoas e criar oportunidades para a comunidade tecnológica e científica do Brasil. Para Léa Velho, no entanto, há muito o que melhorar, embora o cenário seja otimista: “Precisamos de maior qualificação das pessoas que fazem os experimentos laboratoriais, melhor infra-estrutura. Esses problemas foram detectados em várias fases dos testes clínicos”, alerta a pesquisadora.

Para Gabriela Calazan, educadora comunitária da unidade de vacinas do CRT (Centro de Referência e Treinamento DST/AIDS) da Secretaria de Saúde de SP, o fato de o Brasil integrar uma rede internacional para pesquisa de vacinas preventivas é fundamental: “Não será possível um único país isolado alcançar um resultado positivo, essa articulação em rede é necessária. O Brasil não desenvolve vacinas para testes ainda, mas cede espaço para os testes de outras possíveis vacinas, e isso é de suma importância”, garante.

O programa brasileiro de vacinas anti-HIV/AIDS foi criado a partir do Programa Global de AIDS da OMS, em 1991. Ele formula políticas para promover a saúde, atender os portadores e prevenir a expansão da doença. È considerado o programa mais avançado do setor no mundo em desenvolvimento. Estima-se que entre 1994 e 2002, quase 10 mil mortes foram evitadas. Mas ainda há desafios a serem vencidos: crescimento da epidemia em algumas populações, altos custos das drogas, qualidade dos serviços, necessidade de articulação mais eficiente entre órgãos nacionais e, claro, o desenvolvimento das vacinas.

Brasil: testes são de vacinas terapêuticas ou preventivas

No Brasil, há dois tipos de pesquisa de vacinas contra a Aids: terapêuticas e preventivas. As terapêuticas direcionam-se a portadores, que nunca passaram por tratamento. Em 2003, a fase de teste de vacina terapêutica em humanos foi iniciada com a participação das universidades federais de Pernambuco (UFPE) e e Minas Gerais (UFMG), em parceria com a Universidade de Paris. Os trabalhos estavam suspensos desde 2005 por falta de dinheiro. Agora, com novos recursos, o trabalho será retomado.

A primeira etapa da pesquisa durou três anos e resultados mostraram que a vacina reduziu em até 80% a presença do HIV nos infectados. Nesta nova etapa, os voluntários receberão uma dosagem mais concentrada da vacina, feita a partir da retirada de células do sistema imunológico de pacientes infectados. Elas são misturadas a amostras inativas do vírus. A pesquisa deve passar por outras duas fases até ser concluída.

No caso das preventivas, as pesquisas integram uma rede internacional (conhecida como HTVN), financiada pelo governo dos EUA, sede do projeto. Reúne centros em quatro continentes e os ensaios clínicos são realizados em vários laboratórios, incluindo o Brasil. As instituições envolvidas são Universidade Federal do Rio de Janeiro e Centro de Referência e Treinamento DST/AIDS (CRT), em parceria com laboratórios como a Merck & Co e Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Atualmente, cerca de 30 tipos de vacinas preventivas estão sendo testadas no mundo e o grande objetivo é encontrar uma que atue sobre uma característica comum a todos os subtipos. “Uma vacina ideal contra o HIV deverá ser segura, estável sob condições adversas de armazenamento, capaz de induzir imunidade duradoura contra todos os subtipos do HIV, de baixo custo e que possa estar disponível na rede pública de saúde, descreve Calazan.

Primeiramente são realizados os testes pré-clínicos, em animais. Posteriormente, têm início os testes clínicos, aplicados em seres humanos. São três fases clínicas que avaliam segurança, reação do sistema imunológico e eficiência. Depois disso, quando aprovado, o produto vai para o mercado e passa a ser observado. “Isso ainda não aconteceu com os testes do HIV. Cada produto está numa fase diferente, a maior parte está no início. Ainda é perigoso afirmar algo concreto, mas a expectativa é que leve mais 10 anos para o primeiro produto ser lançado. Mesmo assim, será um resultado intermediário, com eficácia parcial, de 40 a 60%. Mas já será um grande avanço”, conclui Calazan.

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