Jovens dizem uma coisa, fazem outra: contradição?

quarta-feira 14 de março de 2007.
 
A pesquisa Este Jovem Brasileiro tem gerado idéias, divulgadas em vários sites, de que há uma contradição entre o que os jovens dizem e fazem. Mas essa não é a única possibilidade de analisar os dados. Para Wenceslao Oliveira, da Faculdade de Educação da Unicamp, os resultados não mostram contradições, mas espelham o humano e a diversidade de situações a que somos submetidos.

Os dados produzidos pelo projeto Este Jovem Brasileiro, elaborado pelo Portal Educacional e coordenado pelo psiquiatra Jairo Bouer, têm gerado idéias, divulgadas em vários sites, revistas e jornais, de que há um desencontro entre a forma como os jovens se enxergam e a maneira como se comportam, ou seja, entre o que se diz e o que se faz. O valor que eles têm de si mesmos não combinaria com suas atitudes: são contra a violência, mas já bateram em alguém; dizem não serem preconceituosos, mas não gostam da idéia de ter um vizinho ou amigo gay; consideram-se honestos, mas negociam com cambistas. Mas as possibilidades de pensar a partir dos dados são múltiplas.

Para Wenceslao de Oliveria Jr., professor da Faculdade de Educação da Unicamp, a pesquisa ratifica o que já se sabe: “Uma coisa é pensar sobre algo numa situação calma, tranqüila, protegida, outra é ter algo importante de nós ameaçado, seja o corpo, o amor, a honra e então certamente agiremos e pensaremos de outra maneira. Dizer que é contra atitudes violentas e depois dizer que já bateu em alguém não traz em si uma contradição, mas sim espelha o humano e a diversidade de situações a que somos submetidos em nossos cotidianos”.

A pesquisa foi realizada com mais de 6 mil alunos, de 8ª série e de Ensino Médio, mediada pelos professores que inscreveram suas turmas, com idades entre 14 e 17 anos, de 54 escolas particulares de 17 Estados das regiões Sul, Sudeste e Nordeste. Aborda temas como violência, preconceito, honestidade, individualismo e até meio ambiente. Eduardo Cardoso Jr., gerente de conteúdo do Portal Educacional, revela que o principal objetivo da pesquisa foi o de diferenciar o que se diz do que se faz, o discurso da prática. “Procuramos muito mais provocar debates do que comprovar hipóteses, ou seja, estimular a reflexão sobre as diferenças entre discurso e prática tão comuns na sociedade de hoje. Convidar o jovem a assumir o seu papel de protagonista na sociedade do que simplesmente descrever e avaliar suas atitudes”, afirma.

Com perguntas orientadas para a diferenciação entre teoria e prática a pesquisa mostra que 90% dos jovens se consideraram honestos, no entanto, 42% passariam por cima de princípios para chegar onde querem; 35% não devolveriam troco que recebessem a mais; 29% não devolveriam uma carteira achada na rua; 64%, mesmo afirmando não comprar ingressos de cambistas, negociariam com eles em caso de um show imperdível. Para Oliveira, as pessoas agem condicionadas pelas situações, raciocinando a partir do mundo onde estão e do momento que vivem, agindo, muitas vezes, de uma forma imediata, sem pensar, para compensar o que a sociedade ou o governo não oferece. “É interessante pensar, a partir da pesquisa, os tipos de virtudes que os jovens acham válidas atualmente, como a competitividade, ambição e produtividade. O impacto desses valores individualistas são coletivos. Discutir esses valores é um caminho para pensar os jovens, suas inquietações e formas de se relacionar com o mundo”, analisa o professor da Faculdade de Educação.

Ainda segundo os dados, a maioria dos jovens (66%) não se considera individualista, no entanto, quando questionados sobre sua maior preocupação, o item mais citado é de cunho estritamente pessoal (45% estão preocupados basicamente com estudo e futuro profissional). Em casa, mais de 60% dos entrevistados preferem ficar sozinhos em seus cantos, em vez de dividir o espaço com pais e irmãos. O psiquiatra Jairo Bouer chama atenção para o fato de que, na atual sociedade, talvez a noção de “ser individualista” esteja sendo confundida com o conceito de indivíduo valorizado, independente, com certa autonomia. “Dessa forma, os jovens acabam não vendo problemas em se denominarem como pessoas individualistas”, afirma Cardoso. Já Oliveira ressalta o fato de muitas escolas privadas levarem ao caminho do individualismo, pois são voltadas apenas para a aprovação no vestibular, quando deveriam trabalhar o conhecimento para a formação do indivíduo crítico.

Em relação ao tema meio ambiente, 80% dos jovens afirmam que se preocupam com o assunto, e mais de 90% acham que as pessoas poderiam se envolver mais nessa questão. Por outro lado, a pesquisa mostra que muitos jovens tomam banhos demorados, alguns nem desligam a torneira ao escovar os dentes e, se não jogam lixo no chão também não alertam colegas que venham a fazer isso. “Ainda é preciso que os jovens demonstrem suas preocupações com o meio ambiente em suas atitudes cotidianas. A pesquisa convida a refletir sobre isso”, diz Cardoso. O professor Wenceslao Oliveira ressalta a amplitude temática da pesquisa e a possibilidade de se pensar os dados referentes ao meio ambiente mais relacionados às questões políticas e sociais, do que às questões íntimas de cada indivíduo. “As campanhas sugerem que a economia da água seja feita no chuveiro, na torneira, por exemplo, sendo que o consumo urbano representa no máximo 10% do consumo de água. Já a agricultura representa 50%. Enfim, a preocupação é legitima, mas é muito mais uma questão de política pública do que de meio ambiente”.

Os temas da pesquisa foram escolhidos com base na época em que foi realizada a pesquisa, das eleições de 2006, buscando assim um posicionamento dos jovens. “Agora as escolas recebem um relatório nacional e local, o que lhes permite fazer uma análise mais profunda e comparativa da sua realidade. Também são elaborados textos de orientação para professores de como utilizar a pesquisa”, conta Cardoso. Os dados produzidos na pesquisa poderão ser utilizados pelos próprios participantes, pais e educadores para se pensar os jovens, seus dizeres e práticas. Cada escola trabalha com os dados da pesquisa de forma diferente; em algumas, os orientadores assumem o trabalho de debater o resultado com os alunos, em outras, os pais também são convidados à escola para discutir e os alunos. “As informações sobre o perfil do jovem são interessantes para os educadores e orientadores, que também descobrem temas que merecem ser trabalhados em mais detalhes com seus alunos. Os dados produzidos pela pesquisa dão margem a muitas reflexões”, completa Cardoso.

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