Tecnologias sociais necessitam investimento e democratização da informação

sexta-feira 10 de novembro de 2006.
 
A Embrapa e o Instituto Genius, que investem em soluções tecnológicas com foco na assistência social, ressaltam a necessidade da criação de estratégias para a transferência das tecnologias sociais, destacam a Internet como o meio mais democrático para a divulgação e assinalam a falta de verba para a área.

As tecnologia sociais, soluções tecnológicas com foco na assistência social e na solução de problemas regionais, privilegiam a participação da comunidade envolvida para a busca da inclusão social e para a melhoria na qualidade de vida. Apesar de o conceito ser relativamente novo, elas já são aplicadas em diversas regiões do Brasil e são desenvolvidas tanto na esfera pública quanto privada, como é o caso da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e do Instituto Genius de Tecnologia. Ambos ressaltam a necessidade da criação de estratégias para a transferência das tecnologias sociais, destacam a Internet como o meio mais democrático para a divulgação e assinalam a falta de verba para a área.

A Embrapa conta hoje com aproximadamente 500 projetos de caráter nacional nesse sentido, vinculados principalmente à agricultura familiar e dirigidos ao apoio e sustentabilidade do meio rural. São projetos como análise do genoma do café, zoneamento agrícola, assentamento, desenvolvimento de tecnologia para produção orgânica de grãos, entre outros. “Todos são voltados para agregarem valor e traçarem cenários, atingindo a sociedade como um todo e não apenas um setor”, afirma Eduardo Assad, chefe da Embrapa Informática e Agropecuária, de Campinas (SP).

De acordo com o economista Laerte Martins, da Associação Comercial e Industrial de Campinas (ACIC), a Embrapa provê soluções para o desenvolvimento sustentável do agronegócio, sendo que o social das tecnologias desenvolvidas pela empresa está embutido nos benefícios e na sintonia com empresas do setor público visando o retorno à comunidade.

A maioria dos projetos é desenvolvida em parceria com instituições como Universidade de Brasília (UnB), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e empresas dos setores público e privado. Junto às universidades, a Embrapa trabalha com professores dos programas de pós-graduação e pesquisadores que também ditam linhas para as pesquisas necessárias à população.

O grande desafio são os projetos voltados para o pequeno agricultor, como, por exemplo, a análise de riscos climáticos - são aproximadamente 5.600 municípios mapeados - e as pesquisas em biossegurança, sobre os efeitos dos organismos geneticamente modificados, como mamão, feijão, batata e algodão. As pesquisas de médio prazo são dirigidas ao desenvolvimento de soluções regionais, relacionadas ao cultivo na agricultura familiar, mas podem ser ampliadas e adaptadas. Já aquelas de curto prazo visam o aperfeiçoamento técnico de pequenos agricultores.

Todos os projetos têm financiamento, não apenas do Ministério da Agricultura, mas também de empresas privadas e laboratórios. De acordo com Assad, a Embrapa poderia fazer muito mais se houvesse um investimento três vezes maior do que o de hoje, que gira em torno de R$ 35 milhões a R$ 50 milhões por ano. A falta de dinheiro impede a eficiência da estrutura da instituição no país, que conta com 39 unidades de pesquisa e mais de 2 mil pesquisadores. “O Brasil é o segundo país do mundo produtor de grãos, possui domínio de pesquisa e tecnologia em agricultura tropical e poderíamos desenvolver muito mais, se o investimento não fosse insuficiente”, afirma Assad.

Outros dois focos da Embrapa são a transferência de tecnologia e as comunicações sociais, que envolvem a divulgação dos projetos desenvolvidos e a transmissão eficaz das tecnologias sociais, de suas estratégias e metodologias. Neste contexto, a Embrapa promove a integração entre pesquisa e mercado e o estreitamento do relacionamento com a sociedade e com a mídia. Foram criados projetos de transferência das tecnologias sociais através de jornais próprios, site, demonstração em locais públicos e do programa televisivo: Dia de Campo na TV - veiculado às sextas-feiras, das 9hs às 10hs, no Canal Rural de TV por assinatura.

“Procuramos atuar em diversos segmentos, mas ainda não chegamos, de forma ativa, nos pequenos agricultores”, afirma Assad. Ele explica o aumento da dificuldade na transferência das tecnologias: “No passado, éramos amparados pela Empresa Brasileira de Assistência Técnica e Extensão Rural (Embrater), que era uma estrutura maior, com foco na transferência de tecnologias. Hoje, há esta dificuldade, pois contamos apenas com a organização dos próprios agricultores. Também tentamos atuar junto ao Ministério, levando a eles essa tecnologia, pois é principalmente de responsabilidade deles a transferência, a democratização da informação”.

Existem algumas agências nacionais de transferência de tecnologia, como a Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), ou em outros estados, como Santa Catarina e Minas Gerais. Mas, de acordo com Assad, é preciso reorganizar o setor como um todo: “Nós sabemos que a informação sobre as tecnologias sociais chega nos setores organizados, nas cooperativas, mas nem sempre nos pequenos agricultores”.

Outra preocupação da Embrapa é com a inclusão digital, pois conseguir que vários agricultores acessem a Internet, pode minimizar o problema da transmissão de tecnologia. “Já criamos três agências de informação para o agricultor e pretendemos criar mais 15, para auxiliar na transferência de tecnologia via web”, diz Assad. Antonio Ribeiro Neto, diretor superintendente do Instituto Genius de Tecnologia, afirma que não há nada mais democrático na relação entre tecnologia e desenvolvimento social do que a Internet, em termos de pesquisa e de forma de adquirir conhecimento.

Uma das tecnologias sociais em implantação pelo Instituto Genius, com sede em Manaus, foi denominada Programa Pró-Formar e conta com o investimento do governo local da Amazônia. O programa consiste em formar professores por meio do uso de uma rede de TV via satélite. “O conteúdo chega dentro da floresta amazônica, a transmissão é unidirecional, mas depois os professores, nas comunidades indígenas, repassam todas as informações e tiram dúvidas”, diz Ribeiro. A facilidade de uso do sistema e os resultados dos aplicativos interativos trazem benefícios para o estado, mas também podem ser expandidos para as regiões próximas a Manaus, podendo ser aplicados em qualquer município. “As tecnologias sociais devem servir para melhorar as condições para todos”, diz Ribeiro, que também ressalta a importância de se fortalecer a parceria entre universidade e empresa para que projetos de grande inovação tecnológica sejam distribuídos.

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