51º Congresso Brasileiro de Genética

Geneticista conclama cientistas a valorizarem uma ciência brasileira

sexta-feira 9 de setembro de 2005.
 
O homenageado da 51º edição do Congresso da Sociedade Brasileira de Genética é o professor emérito da Unicamp Bernardo Beiguelman. Seu curto discurso de agradecimento tinha tudo para ser burocrático, mas surpreendeu. O início humilde de sua fala não prenunciava o que estava por vir. O geneticista convidou seus colegas a reeditar na ciência o movimento antropofágico lançado por Oswald de Andrade em 1928. A proposta dos modernistas era ingerir e digerir elementos vindos de fora, e com isso torná-los brasileiros.

O homenageado da 51º edição do Congresso da Sociedade Brasileira de Genética é o professor emérito da Unicamp Bernardo Beiguelman. Seu curto discurso de agradecimento tinha tudo para ser burocrático, mas surpreendeu. O início humilde de sua fala não prenunciava o que estava por vir. O geneticista convidou seus colegas a reeditar na ciência o movimento antropofágico lançado por Oswald de Andrade em 1928. A proposta dos modernistas era ingerir e digerir elementos vindos de fora, e com isso torná-los brasileiros.

O geneticista defende que o mesmo deve ser feito com a nossa produção científica, que deve libertar-se da subserviência que a caracteriza. Tal deferência está presente tanto entre cientistas como nas agências de fomento. Para ele, as publicações nacionais, mesmo que bem editadas e com circulação no exterior, não têm peso quando se analisa a produtividade de pesquisadores, além de a comunidade científica dar mais valor à pesquisa feita em colaboração com estrangeiros.

A pressão para que recém doutores façam pós-doutorado em países ricos causa, de acordo com Beiguelman, o escoamento de talentos para sociedades que não investiram em sua formação e não precisam deles. É preciso, portanto, que se empregue o conhecimento e a criatividade das mentes brasileiras para criar programas de pesquisa que visem resolver problemas locais. “Os “melhoristas” [especialistas que produzem organismos através de melhoramento genético] se aplicaram em desenvolver variedades de plantas mais produtivas adaptadas às condições locais, e em criar técnicas agrícolas de acordo com nossos ecossistemas. Isso faz com que hoje tenhamos uma ciência agronômica nacional. O mesmo é necessário para o resto da ciência brasileira”, exemplifica o geneticista homenageado, referindo-se à agronomia.

Bernardo Beiguelman foi contratado em 1963 pela Unicamp com a missão de fundar o primeiro departamento de genética médica da América Latina. Ao longo de sua carreira, foi autor de 432 trabalhos científicos entre livros, teses, artigos e comunicações científicas em congressos, foi Presidente da Sociedade Brasileira de Genética, da Associação Latinoamericana de Genética, é Membro Titular da Academia Brasileira de Ciências, e foi incluído por indicação dos seus pares entre os cem cientistas e instituições científicas fundamentais que deram contribuições decisivas para o progresso do Brasil e da ciência (Revista Superinteressante Nº 100). Apesar de aposentado desde 1997 da Unicamp, Beiguelman mantém vínculo no curso de pós-graduação em genética do Instituto de Biologia. Dentre suas linhas de pesquisa merecem destaque os trabalhos pioneiros sobre a resistência e suscetibilidade hereditária à hanseníase, as pesquisas sobre genética antropológica e uma série de trabalhos desenvolvidos mais recentemente sobre a epidemiologia de gêmeos, a qual poderá trazer informações importantes sobre a biologia da reprodução humana.

Leia mais:- Nada contra a clonagem - artigo de Bernardo Beiguelman na edição sobre clonagem da ComCiência, de dezembro de 2001.

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