Jornalismo científico cresce, mas dilemas permanecem

terça-feira 5 de setembro de 2006.
 
Começa no dia 6 de setembro o XXIX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação (Intercom), em Brasília. Entre os diversos segmentos jornalísticos que serão debatidos, está o jornalismo científico. É um momento importante para a reflexão sobre produção, formação e institucionalização da área no país.

Começa no dia 6 de setembro o XXIX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação (Intercom), em Brasília. Entre os diversos segmentos jornalísticos que serão debatidos, está o jornalismo científico. É um momento importante para a reflexão sobre produção, formação e institucionalização da área no país.

De acordo com o jornalista e professor das Universidades Metodista e USP, Wilson da Costa Bueno, o jornalismo científico no Brasil passa por um momento de expansão. “Tanto o número de publicações como o interesse por parte do público vem aumentando”, diz. Para Bueno, diferente do que aconteceu na década de 1980, quando houve um rápido crescimento do jornalismo científico seguido de um retrocesso, atualmente há um crescimento gradual e sólido.

“Nos anos 80, o jornalismo científico virou moda e muitas revistas rapidamente aumentaram suas tiragens. Depois do modismo, já nos anos 90, houve uma estagnação, resultando inclusive no fechamento de alguns veículos”, diz. Bueno lembra que a maioria dos grandes jornais do país possuía cadernos semanais sobre ciência, que depois foram reduzidos a poucas páginas ou desapareceram.

Segundo Bueno, agora o jornalismo científico no Brasil volta a ocupar mais espaço nos grandes veículos, mas de uma forma ainda tímida, longe do que ele considera suficiente. “Por outro lado, o surgimento de revistas especializadas ajuda na solidificação do mercado nessa área”, reforça Bueno. Dois bons exemplos são as versões brasileiras das revistas Scientific American e Astronomy.

O presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC), Ulisses Capozoli, também acredita que há um pequeno crescimento do espaço ocupado pelo jornalismo científico na mídia e chama a atenção para um outro fato: esse crescimento reflete o aumento da própria produção científica no Brasil. Para Capozoli, tanto o poder público, como a iniciativa privada passaram a apostar na ciência como forma de construção de conhecimento. Para se ter uma idéia, o número de artigos de cientistas brasileiros publicados em periódicos indexados pela base de dados do Institute for Scientific Information (ISI) triplicou em 12 anos. A produção passou de 3.552 artigos em 1990, número que representava 0,64% da produção mundial, para 11.285 em 2002, o que equivalia a 1,55%. Em termos mundiais ainda é um número modesto, mas indica uma tendência de crescimento. O país pulou da 28ª posição no ranking mundial, em 1980, para a 17ª posição em 2000, segundo dados do ISI. “O aumento da produção científica gera demanda por informações qualificadas e por isso o jornalismo científico vai ganhando espaço”, diz Capozoli.

Bueno acredita que esse interesse em ciência por parte do público é percebido também em outros meios como o mercado de livros. “O crescimento do número de livros e de editoras que lançam coleções destinadas à ciência vem aumentando nos últimos anos”, afirma. Além disso, Bueno chama a atenção para o espaço na internet. “Muitos institutos de apoio à pesquisa viram na internet um meio de divulgar suas produções”, diz.

Esse outro aspecto, a preocupação da comunidade científica em divulgar o que produz, também sofreu mudanças nos últimos anos, de acordo com Bueno. “As universidades e os centros de pesquisas perceberam que precisavam democratizar o conhecimento científico, até por uma questão de legitimação”, afirma. “Mas ainda assim estamos longe do ideal”.

Formação e produção deixam a desejar

Apesar de elogiar o pequeno crescimento de espaço na mídia, Capozoli faz críticas à forma como o jornalismo científico é produzido. De acordo com ele, há um legado positivista que reduz e simplifica a ciência. “O positivismo que influenciou e ainda influencia a própria produção científica expandiu-se para o jornalismo”, afirma. Ele cita como exemplo as notícias sobre o mapeamento genético, que traziam previsões de resolução de muitos problemas de saúde a partir de seu desfecho. “O mapeamento foi feito e as questões permaneceram, não há soluções fáceis na ciência”, argumenta ele.

De acordo com Capozoli, o esquema normatizado do positivismo quando aplicado ao jornalismo científico pode dar a ilusão de que a ciência traz respostas rápidas e imediatas. “Muitos veículos de comunicação seguem essa lógica, mas ao mesmo tempo, outros veículos estão superando isso, da mesma forma que a produção científica”, diz.

Já a jornalista da agência de Jornalismo Científico Notisa, Ilana Polistchuck, diz que em muitos casos a escolha das pautas segue critérios que não os da importância científica. “Às vezes um assunto ganha espaço somente porque é novidade, mesmo que não traga informações realmente relevantes, em detrimento de outro mais importante do ponto de vista científico”, afirma.

Capozoli também critica a falta de formação de qualidade dos profissionais da área. “O jornalista especializado em ciência precisa ter formação intelectual e são poucos os cursos que oferecem isso”, afirma. Bueno também acha que a formação fica a desejar, “a maioria dos cursos superiores não possuem nem disciplinas sobre jornalismo científico, quanto mais cursos específicos”, diz.

Dilema entre crescimento na área e institucionalização

O Congresso Brasileiro de Jornalismo Científico, que acontece a cada dois anos, deveria ser realizado esse ano, mas a ABJC decidiu adiar para o início do ano que vem (ainda sem data definida). Segundo Capozoli, o motivo do adiamento é a falta de verba para realização do evento. “Como a ABJC não tem verba própria temos que captar em outras instituições e isso dificulta e burocratiza o processo”, afirma.

Capozoli diz ainda que a instituição não está realizando todas as atividades que deseja porque todos os membros precisam se dedicar muito tempo a outros trabalhos sobrando pouco tempo para a ABJC. Para Bueno, que já foi presidente da ABJC, esse tipo de situação cria um descompasso entre o pequeno aumento de espaço do jornalismo científico na mídia e a instituição que representa o segmento.

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