Cativeiro é alternativa para reduzir mortalidade de peixes ornamentais

sexta-feira 1º de setembro de 2006.
 
Pesquisa da UFPE aponta que 11% dos peixes marinhos coletados para a prática do aquarismo no Ceará são descartados. Para minimizar a pressão sobre as reservas naturais, uma saída sustentável seria a criação em cativeiro, hoje feita em apenas 10% das espécies marinhas.

Medidas simples como educação ambiental e melhoramento das condições dos tanques ajudariam a minimizar a pressão sobre as reservas naturais de Peixes Ornamentais Marinhos (POMs), já que 90% deles são capturados no seu habitat. Uma saída sustentável seria a criação em cativeiro. Segundo pesquisadores do Grupo de Ictiologia Marinha Tropical da Universidade Federal de Pernambuco, as mortes se devem principalmente às condições de coleta, de armazenamento e de comercialização desses animais.

A pesquisa, publicada no Boletim Técnico Científico do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama), Explotação de peixes ornamentais marinhos no estado do Ceará, Brasil: Capturas e Manutenção nas empresas e exportação, apontou que medidas relativamente simples, como manter a aeração dos reservatórios, garantiriam a sobrevivência das espécies nos tanques das empresas de exportação.

Ainda, de acordo com a pesquisa, estuários e recifes em mar aberto são os lugares mais freqüentes de coleta espécies para o aquarismo. Ela é feita manualmente ou com equipamentos autorizados pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis (Ibama), como tarrafas e puçás. Em seguida, os peixes de diferentes espécies são colocados em um mesmo tanque e essa é uma das principais causas de descarte, que chega a 11% dos animais. Mais da metade desse percentual é rejeitado por motivos estéticos, já que o pequeno espaço faz com que os peixes se agridam e acabam machucados. “Os peixes chegam [à baía] extremamente atordoados e injuriados e, ao serem lançados no mar, serão facilmente capturados pelos predadores que vivem na baía do porto ou de um outro local qualquer de despesca”, afirma Maria Elisabeth Araújo, uma das autoras do artigo e coordenadora do Grupo de Ictiologia Marinha Tropical. Além do descarte por motivos estéticos, essa prática ocorre em função do aparecimento de doenças (20%) e da descompressão ineficiente durante a captura (feita por meio de perfuração da bexiga natatória - estrutura que auxilia o equilíbrio dos peixes), em 19% dos casos.

A mortalidade dos POMs se eleva após a captura, durante a espera da viagem para outras localidades do país ou do exterior. O armazenamento é feito em tanques por períodos que chegam a 15 dias, onde existe apenas sistema de aeração e troca de água em intervalos de uma semana, mas sem sistema de filtragem de água apropriado. A visita a coletores e empresas exportadoras revelou ainda o uso de água sem tratamento, a falta de aclimatação dos peixes entre a água de desembarque e a do sistema da empresa, o grande número de animais por tanques, a embalagem dos peixes para a exportação em água de má qualidade e transportes prolongados.

“O impasse é bem maior para os peixes marinhos que os de água doce, pois tudo é mais caro e complexo. Manter aquários de grande porte e de qualidade técnica é bastante oneroso e requer experiência com aquarismo marinho”, esclarece Araújo. A fragilidade desses animais faz com que apenas 10% sejam criados em cativeiro, em oposição aos 90% das espécies de água doce. O peixe palhaço (Amphiprion spp) foi a primeira espécie reproduzida em cativeiro e, hoje, esse processo se aplica a, aproximadamente, 30 espécies marinhas.

De acordo com o artigo sobre o ordenamento da exploração dos POMs, até 1997, não existiam pesquisas sobre extração desses animais. A atividade era desconhecida e não se sabia a quantidade ou quais espécies eram capturadas. Em 2004, a Instrução Normativa 56 do Ibama limitou a captura de peixes ornamentais a 135 espécies e uma cota anual de mil indivíduos de cada espécie por empresa. O Instituto também passou a limitar o número de empresas de exploração dos peixes e os instrumentos de coleta. Mesmo com determinações práticas, Araújo acredita que falta incentivo dos órgãos de fomento à pesquisa para ampliar o conhecimento sobre alternativas sustentáveis de criação em cativeiro.

Apesar da exploração em larga escala, Maria Elisabeth Araújo lembra que outras práticas que depredam mangues e recifes são mais impactantes que a própria coleta de POMs. Para minimizar este efeito, especialistas sugerem que seja feito um plano de ordenamento sustentável, já que a atividade gera renda, emprego aos setores pesqueiros. Ela também propõe o reconhecimento de empresários que trabalhem com medidas que minimizam prejuízos da atividade, como o treinamento técnico e educação ambiental dos coletores, descompressão e aquários com filtragem adequada.

O Brasil se destaca no setor de exportação de peixes ornamentais, movimentando anualmente cerca de US$ 4 milhões. Segundo artigo publicado no Boletim Técnico Científico do Ibama, em 1998, o país se encontrava entre os seis maiores fornecedores de peixes para a União Européia. O Ceará é um dos estados que mais exportam peixes ornamentais marinhos, atualmente para 19 países, e também é pioneiro no desenvolvimento de trabalhos sobre a exploração de espécies de aquarismo.

Atualmente, estima-se que 1,5 milhão a 2 milhões de pessoas tenham aquários marinhos, atividade que movimenta cerca de US$ 500 milhões anualmente com o comércio de 1500 espécies.

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