Fungo abre caminho para a reciclagem de resina não biodegradável

segunda-feira 24 de julho de 2006.
 
Pesquisadores da Universidade de Wisconsin (EUA) estudaram um meio para reciclar a resina fenólica, usada em colas e adesivos e na construção civil, e que não pode ser derretida ou reciclada. A chave está no fungo de podridão branca (Phanerochaete chrysosporium), que quebra a cadeia da resina, possibilitando a geração de um subproduto solúvel em água.

Dura e flexível, a resina fenólica, usada em colas e adesivos e na construção civil, não pode ser derretida ou reciclada como polietileno, o plástico das garrafas descartáveis. Para evitar que ela fique acumulada nos lixões, como ocorre no Brasil, pesquisadores da Universidade de Wisconsin (EUA) estudaram um meio para reciclar esse produto. A chave para a quebra da molécula está no fungo Phanerochaete chrysosporium, convenientemente chamado de fungo de podridão branca, que quebra a cadeia da resina, antes não biodegradável, possibilitando a geração de um subproduto solúvel em água.

Segundo Adam Gusse, um dos autores do artigo publicado em maio no periódico Environmental Science and Technology, apesar de ser possível a implantação em escala industrial, pode haver problemas com a cultura do fungo, como a regulação da temperatura e a reprodução do organismo em grande quantidade. Além disso, a pesquisadora da Faculdade de Engenharia Química (FEQ) da Unicamp Lúcia Innocentini Mei ressalta que a viabilidade econômica fica comprometida, pois não se demonstrou até que ponto o bolor é eficiente ou rápido na degradação da resina.

Foram testadas 11 linhagens de fungos, cinco de podridão branca e um de castanha, cuja habilidade comum era biodegradar poluentes. De acordo com o estudo, esta é a primeira vez que foi demonstrada a quebra das resinas fenólicas por meio da mudança de coloração do fungo de amarelo para rosa (cor dos monômeros, estruturas que compõem parte da resina). No entanto, os especialistas do Instituto de Botânica de São Paulo, Vera Lúcia Ramos Bononi e Dácio Matheus, lembram que “essa função não é tão nova, mas vem sendo estudada desde 1989, quando se descobriu a capacidade destes fungos (basidiomicetos) degradadores de lignina em degradar poluentes orgânicos recalcitrantes [como pesticidas e corantes]”, diz o pesquisador. Análises brasileiras também indicaram a capacidade desse fungo de quebrar fenóis (substância que associada ao formaldeído constitui a resina fenólica). Na opinião do professor do Instituto de Química da Unicamp, Nelson Duran, como essa função era conhecida, já era possível concluir que o fungo degradaria a resina também.

Brasil

Embora não seja de uma linhagem nacional, o fungo de podridão branca ou ligninolítico desperta o interesse de pesquisadores brasileiros. Um dos que trabalham com esse organismo decompositor, Duran, acrescenta que seu uso possibilita a adição de menos quantidade de derivados de cloro para branquear o papel. Isso significa uma menor produção de organoclorados - compostos tóxicos que se acumulam nos organismos e podem causar doenças como transtornos hormonais, neurológicos, debilidade no sistema imunológico e câncer. O Instituto de Botânica de São Paulo também emprega o fungo há mais de dez anos para a descontaminação de solo com organoclorados contidos em agrotóxicos e que podem permanecer em atividade no solo por até 30 anos.

Até 1993, a empresa de produtos químicos Rhodia descartava organopoluentes, como o hexaclorobenzeno (HCB) e o pentaclorofenol (pó-da-china), em aterros clandestinos na Baixada Santista (SP). Quando o fato foi descoberto, a empresa e o Instituto de Botânica desenvolveram alternativas para desintoxicar, com a ajuda do fungo de podridão branca, uma área com cerca de 33 mil toneladas de organoclorados.

Dados de 2004 da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) apontam que, nesse ano, as empresas instaladas no país produziram quase 192 mil toneladas da resina fenólica e o principal destino foi a indústria de colas e adesivos, que consumiu 81% do produto. Já nos Estados Unidos, país onde a indústria química possui o maior faturamento do planeta (US$ 516 bilhões), a produção anual da resina gira em torno dos em 2,2 milhões de toneladas.

Embora a pesquisa tenha sido realizada apenas no laboratório e os obstáculos para a utilização do fungo sejam muitos, Adam Gusse acredita que essas barreiras podem ser transpostas devido à quantidade de conhecimento já acumulado sobre o emprego desse microorganismo em projetos industriais de larga escala. As informações do artigo sobre o processo de degradação podem servir também de subsídios para a mudança de atitudes com relação à resina fenólica e a conservação da madeira.

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