Crise na Varig foi causada por erro dos diretores, diz pesquisador

terça-feira 20 de junho de 2006.
 
O processo de recuperação judicial, o cancelamento de vôos e o futuro incerto da Varig - mesmo com a aceitação da proposta de compra pelos trabalhadores - têm suscitado diversos debates. A causa da crise da empresa é um dos pontos centrais nas discussões. Para o sociólogo Cristiano Monteiro, que estudou o tema em seu mestrado e em seu doutorado na UFRJ, foram equívocos na estratégia administrativa que levaram à quebra da companhia.

O processo de recuperação judicial, o cancelamento de vôos e o futuro incerto da Varig - mesmo com a decisão do juiz Luiz Roberto Ayoub, da 8ª Vara Empresarial, no dia 19 de junho, de aceitar a proposta de compra de R$ 1,010 bilhão feita pelos Trabalhadores do Grupo Varig - têm suscitado diversos debates. A causa da crise da empresa é um dos pontos centrais nas discussões. Para o sociólogo Cristiano Monteiro, que estudou a trajetória da Varig em seu mestrado e o setor de aviação comercial no doutorado, ambos defendidos na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), foram equívocos na estratégia administrativa que levaram à quebra da companhia.

Enquanto alguns apontam como culpados a reprodução de vícios da administração estatal e o estímulo ao corporativismo da Fundação Ruben Berta, formada por um conselho de trabalhadores que participa da Varig, Cristiano Monteiro atribui a ruína da empresa à grande autonomia dos diretores e aos erros cometidos por eles. Filho de aposentados da Varig, Monteiro não só coleciona histórias da empresa - “bandeira” da aviação brasileira -, como também dedicou parte de seus estudos acadêmicos ao assunto. De acordo com o pesquisador, a Varig quebrou por falta de visão estratégica e pela ausência de prestação de contas por parte dos diretores.

Fundação

O modelo de fundação, criado no final da década de 1930, não foi feito para dar regalias aos trabalhadores. Monteiro explica que foi uma forma de impedir que a empresa fosse estatizada. O Rio Grande do Sul estava, na época, decidido a tornar a Varig estatal, devido a recorrentes auxílios financeiros do governo. Ruben Berta (1907-1966), utilizando-se de uma cláusula que impedia a estatização de fundações, propôs um novo modelo de governança: a empresa seria uma fundação gerida pela direção e controlada por um quadro de trabalhadores. A idéia foi aprovada pelo senador Alberto Pasqualini e por Getúlio Vargas, imbuídos pelo conceito de capitalismo social.

“Ele [Rubem Berta] criou a estrutura da fundação, que seria um conselho deliberativo dos funcionários. Mas o próprio Rubem Berta escolhia quem ia ser membro do conselho. Um funcionário que entrevistei disse que o ‘Conselho Deliberante’ era o ‘Conselho Concordante’”, ilustra o pesquisador. Monteiro afirma que “os funcionários nunca tiveram nenhuma força, enquanto os diretores e dirigentes sempre tiveram muita autonomia”. Isso teria propiciado uma série de falhas administrativas.

Equívocos

O fato de, nos anos 1990, a Varig continuar a atuar como se estivesse nos anos 1970 é o principal erro administrativo apontado por Cristiano Monteiro. Durante as décadas de 1960 e 1970, época de ouro da aviação brasileira e período em que a Varig se consolidou como grande empresa, havia a chamada “realidade tarifária”. As tarifas aéreas eram estipuladas a partir do custo que as empresas mandavam para o Departamento de Aviação Civil (DAC), então controlado pelo regime militar, que, por sua vez, estabelecia uma taxa de retorno e os preços das passagens.

A falta de limite para o repasse ao consumidor fez com que não apenas as tarifas permanecessem altíssimas, mas também que a Varig pudesse desperdiçar à vontade. Monteiro conta que seus pais, que foram comissários da empresa por 29 anos, faziam vôos para Nova Iorque nos quais a metade do avião era de primeira classe. “Em um 707, que comporta mais de cem passageiros, por que as pessoas pagariam a primeira classe? Eram artistas, políticos, jornalistas... todos convidados! Viajava-se gratuitamente com caviar, lagosta, etc...”, relata.

Por maior que fosse o custo, não havia problema para a empresa, pois a realidade tarifária compensava os patrocínios feitos pela Varig. Além disso, a estratégia de agradar poderosos garantia empréstimos estatais. Ruben Berta foi um exímio articulador político: conseguiu ser amigo de Getúlio, Brizola e, depois, dos militares.

Nos anos 1980, em um contexto de inflação e de tarifas congeladas, a Varig ainda conseguiu ampliar a frota e preservar empregos. Isso foi possível na medida em que só a Varig fazia vôos internacionais. Como sua receita era em dólar, a crise econômica do país não a afetava diretamente.

A partir de 1990, entretanto, a situação tornou-se insustentável. Segundo Monteiro, a administração - na época, nas mãos de Rubel Thomas, atual diretor da TAM - continuou “batendo na mesma tecla”, isto é, fazendo a política clientelista de “Varig grande”. O caso mais emblemático citado pelo sociólogo é o de Fernando Collor. Enquanto o presidente dizia que modernizaria o país, acabaria com monopólios e com organizações atreladas ao Estado - leia-se, atacaria a Varig e privatizaria a Vasp -, a Varig custeava vôos de Collor aos Estados Unidos, regados a vinhos de US$ 500, acreditando na proteção do governo à companhia aérea.

“Outro erro estratégico foi a demissão de Fernando Pinto, que era preocupado com eficiência e competitividade e também comprometido com a tradição da Varig”, diz o pesquisador, ao referir-se ao atual presidente da TAP, estatal aérea portuguesa . Depois de dois anos de gestão de Fernando Pinto, a Varig apresentou saldos positivos. Segundo o jornalista e comentarista econômico Luís Nassif, Fernando Pinto, acusado de incompetente no Brasil, mudou-se para Portugal, salvou a TAP e se tornou o mais prestigiado executivo daquele país.

“A Varig quebrou por adotar uma estratégia de crescimento buscando favorecimento junto ao governo, numa época em que as coisas não funcionavam mais assim. Isso tem a ver com a grande autonomia que os diretores sempre tiveram e não com a participação dos funcionários, que foi sempre nula", resume Monteiro.

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