Neurologistas querem mudar tratamento de acidente vascular cerebral

segunda-feira 5 de junho de 2006.
 
Apesar de ser uma das doenças de maior taxa de mortalidade no país, o acidente cerebrovascular ainda não faz parte das prioridades da maioria dos hospitais. Durante o Simpósio de Neurovascular, realizado pelo Departamento de Neurologia da Unicamp no dia 25 de maio, neurologistas apresentaram experiências diversas e defenderam a necessidade de mudanças no atendimento e tratamento de pacientes.

A importância do pronto atendimento ao paciente vítima de acidente vascular cerebral (AVC) foi o principal tema discutido no Simpósio de Neurovascular realizado pelo Departamento de Neurologia da Unicamp, no dia 25 de maio. O evento, que reuniu neurologistas de todo o país, celebrou os 40 anos da fundação do departamento. Os palestrantes falaram da necessidade de esclarecer a opinião pública sobre a gravidade da doença - primeira causa de incapacitação em adultos e umas das três principais causas de mortalidade no país - e pressionar a categoria médica e os governos para a disseminação de serviços especializados para esse tipo de emergência, como já é patente no atendimento dos casos de infartos cardíacos, doença semelhante ao AVC.

“O AVC está abandonado no Brasil. É comum nos hospitais não haver tratamento para o AVC e isso é catastrófico”, lamentou o neurologista Maurício Friederich, da PUC-RS. Friderich falou sobre a experiência do Hospital Mãe de Deus, em Porto Alegre. Em 2002, foi implantada uma Unidade Vascular de Emergência, com especialistas em doenças vasculares, funcionando exatamente como as unidades vasculares para infarto do coração, tão comuns no país. A capital gaúcha possui outras cinco unidades semelhantes.

O modelo assistencial conta com neurologistas e cardiologistas, apoiados por cirurgiões cardíacos, vasculares e radiologistas intervencionistas. As equipes receberam treinamento, assinaram documentos de co-responsabilidade e os neurologistas têm um compromisso com o hospital de, seja qual for a situação, chegarem na emergência em 30 minutos quando forem solicitados para atender um caso de AVC. Dentro do hospital, os setores de exame e cirurgia ficam próximos para que o paciente seja rapidamente atendido e tratado. Existe ainda regulação de tempos e indicadores de qualidade. “Nós não perdemos mais pacientes na Emergência. Não há mais justificativa para isso”, comentou o médico.

O projeto de Porto Alegre inclui também a divulgação dos conceitos do AVC e das Unidades Vasculares na cidade, por meio de campanhas. De acordo com o médico, a resposta da população a essas campanhas é gradativa. “Nos últimos 4 anos vemos uma mudança na consciência sobre o que pode ser feito para salvar aquele paciente. É absurdo, no entanto, hospitais que não possuem esse tratamento”.

Ricardo Afonso Teixeira, da PUC-Brasília, trouxe a experiência do Hospital Santa Luzia, no DF, um hospital particular, que atende cerca de 12 pacientes com AVC por mês. A implantação da emergência para AVC reduziu as mortalidades em 18% e diminuiu em 29% a perda da autonomia nos pacientes após a doença. Segundo ele, o resultado da implantação dessas unidades é a "super especialização" do grupo envolvido e maior freqüência de trombólises - tratamento de desobstrução das veias cerebrais - nos casos de AVC isquêmico agudo. “O modelo de Serviço de AVC deve garantir o rápido acesso à emergência, a recanalização das veias cerebrais, prevenção primária e secundária e a reabilitação do paciente”, explica Teixeira.

A informação para prevenção e rápido reconhecimento dos sintomas é também uma etapa fundamental para esse serviço, complementa o neurologista, sugerindo a necessidade de maior articulação entre sociedade e hospitais. “O acidente cerebrovascular é tratável e nós precisamos conscientizar os médicos e as pessoas disso”, diz.

Quanto mais rápido o paciente receber o tratamento, menores serão as seqüelas cognitivas do acidente, principalmente nos casos de AVC isquêmico agudo. O caráter de urgência no atendimento ao paciente passou a ter mais importância a partir da descoberta do medicamento rtPA (fibrinolítico ou trombolítico). Aplicado em até três horas após a ocorrência desse acidente vascular, o rtPA pode reter as seqüelas em até 30%, impedindo a necrose do tecido cerebral por falta de oxigênio e nutrientes. O medicamento é manipulado por neurologistas da Europa e dos Estados Unidos desde o ano 2000. No Brasil, começou a ser utilizado em 2002, após a publicação do primeiro consenso brasileiro sobre o uso de trombolítcos no acidente vascular cerebral isquêmico agudo.

O AVC isquêmico caracteriza-se pela obstrução de uma das artérias do cérebro, privando a região de oxigênio e de nutrientes trazidos pelo sangue. O trombolítico dissolve essa obstrução e faz o sangue voltar a circular e alimentar o tecido cerebral, evitando a necrose. Por razões óbvias, o medicamento não pode ser utilizado em casos de AVC hemorrágico, logo o diagnóstico do tipo de acidente vascular deve ser preciso.

A importância da adoção desse tratamento é estatística: cerca de 85% dos pacientes que chegam aos hospitais com AVC são tipo isquêmico. Entretanto, apenas 2% desses casos são submetidos ao tratamento com trombólise, em todo o Brasil. A maioria dos pacientes não recebe o medicamento porque não chega ao hospital no tempo adequado. Outras razões para a subutilização do medicamento também foram apontadas pelos médicos durante o Simpósio: o pouco conhecimento sobre os sintomas do AVC isquêmico; o receio de ocorrer uma hemorragia cerebral devido ao uso do medicamento; e falta de verbas para investir na adoção do tratamento.

Ayrton Massaro, da UNIFESP, lembra que em São Paulo apenas dois hospitais implantaram o atendimento ao AVC: o Albert Einstein, em 2005, e o Sírio Libanês, esse ano. Para ele, a grande dificuldade é trazer o tratamento do AVC à prática de atendimento dessa doença. “A neurologia precisa mudar seus conceitos, para sair desse estado de defasagem. As instituições precisam ter consciência de que o AVC é um problema social no país”.

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