Esquizofrenia limita entendimento de linguagem corporal

quarta-feira 31 de maio de 2006.
 
Compreender o significado de um movimento do corpo ou de uma postura frente a determinada situação é fácil para muitas pessoas. Mas pesquisas norte-americanas dão indícios de que pacientes que sofrem de esquizofrenia não têm a mesma capacidade de percepção social que aqueles que não têm a doença.

Compreender o significado de um movimento do corpo ou de uma postura frente a determinada situação é fácil para muitas pessoas. Mas pesquisas norte-americanas dão indícios de que pacientes que sofrem de esquizofrenia não têm a mesma capacidade de percepção social que aqueles que não têm a doença. Mesmo em níveis moderados ou tratados com remédios, esquizofrênicos não têm "fluência" na linguagem corporal, de acordo com pesquisadores da Universidade de Iowa.

O grupo formado por Nirav Bigelow, Sergio Paradiso e Nancy Andreasen, em artigo publicado na Schizophrenia Research de abril deste ano, mostrou, através de testes com vídeos, que indivíduos com a doença não conseguem diferenciar satisfatoriamente movimentos de alegria e tristeza, por exemplo.

Segundo Mario Rodrigues Louzã Neto, médico assistente e coordenador do Projeto Esquizofrenia (PROJESQ) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clinicas da Faculdade de Medicina da USP, trata-se de um novo trabalho na direção do que já se conhece. Estudos prévios feitos por Paradiso e Andreasen - ambos professores de psiquiatria - já mostravam que pacientes com esquizofrenia têm problema em decifrar expressões faciais.

Para o professor brasileiro, o artigo tem importância porque aprofunda o conhecimento de onde residem essas falhas. “Existem casos de pacientes que não olham nos pontos essenciais, como nos olhos e na boca, para decodificar estado emocional de uma face”, exemplifica. “Como os códigos sociais são muito complexos, para criar meios de superar ou contornar essas falhas, é necessário que se entenda como elas ocorrem”, explica Mario Louzã.

O estudo norte-americano incluiu 14 pessoas sem esquizofrenia e 20 com esquizofrenia que estavam tomando remédio e tinham suaves sintomas moderados. Em um dos testes, participantes assistiram um vídeo de corpos humanos em movimento. As imagens eram manipuladas de um modo que as características faciais ou o formato dos corpos não podiam ser vistos. Ao invés disso, somente pontos de luz, atados às juntas, eram visíveis quando se moviam. Baseados na velocidade e no padrão dos pontos de luz, indivíduos com esquizofrenia e voluntários saudáveis foram levados a determinar se o movimento descrevia alegria ou tristeza. O estudo mostrou que indivíduos com esquizofrenia não podiam decifrar essas emoções.

Participantes do estudo também viram clipes com conteúdo de cenas complexas de situações sociais em que o rosto dos atores eram apagados. Os participantes assistiram, depois, as mesmas cenas com as faces. Pessoas com esquizofrenia não melhoraram suas performances pois, mesmo com as faces descobertas, não identificaram totalmente o humor das pessoas em cena.

O estudo aponta que o tratamento padrão para esquizofrenia não parece ser capaz de melhorar a percepção que ajuda a sociabilidade com os outros. A disfunção também não parece ter relação com o nível de inteligência. O próximo passo a ser dado pelos pesquisadores da Universidade de Iowa é examinar mais de perto como a medicação usada para tratar esquizofrenia afeta a percepção social e se diferentes medicações teriam diferentes efeitos. De acordo com Mario Louzã, hoje os medicamentos são mais eficazes e têm menos efeitos colaterais que os mais antigos - que causavam muitos tremores nos pacientes.

Além da medicação, o tratamento da esquizofrenia pode ser feito com reabilitação, através de terapias. Louzã cita o chamado social skill training, utilizado desde a década passada, em que mostram-se vídeos explicando a maneira de agir dos atores e os esquizofrênicos aprendem a identificar emoções e lidar com situações corriqueiras, banais para a maioria das pessoas.

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