Caiçaras se tornam professores para resgatar tradição de sua comunidade

terça-feira 16 de maio de 2006.
 
Na busca pela conservação e resgate de sua cultura, moradores da Juréia, no litoral paulista, começaram a oferecer cursos de cultura caiçara à própria comunidade. O projeto, conveniado ao Ministério da Cultura, é importante para essa população que foi impedida de trabalhar em seu território de origem depois da criação da Estação Ecológica Juréia-Itatins em 1987.

Aspectos da cultura caiçara, no formato de cursos e oficinas, estão sendo ministrados pelos próprios caiçaras à comunidade da Juréia, área localizada entre os municípios de Peruíbe e Iguape, no sul do litoral paulista. O projeto, denominado Ponto de Cultura Caiçara, é conveniado ao Ministério da Cultura e busca resgatar e conservar uma das mais tradicionais formas de cultura brasileira. Os caiçaras são habitantes que ocupam o litoral do Paraná, Rio de Janeiro e São Paulo. Algumas dessas comunidades paulistas foram impedidas de trabalhar em seu território de origem depois da criação da Estação Ecológica Juréia-Itatins em 1987.

Organizado pelos moradores e Associação dos Jovens da Juréia (AJJ), o projeto cultural oferece oficinas de confecção de viola e de rabeca (instrumento de cordas parecido com o violino), aulas de viola e rabeca, entalhe e pintura em madeira, cestaria e dança (fandango e batido). Além disso, há cursos extras de associativismo, produção cultural, confecção de bandeira de folia e de idumentária. As aulas têm duração de oito meses. Dauro Prado, coordenador do projeto, conta que a programação é totalmente gratuita e que os cursos serão realizados até 2008.

“As oficinas de cultura caiçara são manifestações de orgulho e de valorização de uma identidade que muitas vezes é negada. Assumir-se caiçara não é algo fácil na região, pois o discurso da tradição é visto, em diferentes setores, como atraso em oposição ao moderno que provém de esteriótipos das grandes cidades”, ressalta Alik Wunder, doutoranda da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e apoiadora da AJJ desde 2002.

Wunder, juntamente com Luisa Alonso, pedagoga da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Registro, Cristiana Bueno, percussionista e arte-educadora, e Giselle Vale, dançarina, atriz e educadora infantil, esteve na Juréia nos dois primeiros dias de aula do projeto, no final de abril, para dar dicas aos caiçaras de como ensinar. “Como transformar o conhecimento de uma vida em um curso ou oficina? Essa é a maior dúvida deles. O nosso desafio é pensar em alguns métodos de ensino levando em consideração as peculiaridades dos métodos caiçaras de ensino”, afirma a pesquisadora.

Além do ensino sobre as manifestações culturais locais, as oficinas são importantes pelo próprio convívio que elas proporcionam. “A cultura está na maneira de falar, de se relacionar, de organizar festas. Assim, vejo um grande potencial destas oficinas serem oferecidas também ao público das grandes cidades. Estou querendo, inclusive, organizar uma vinda deles à Unicamp”, revela Wunder.

Território

A idéia de resgate desta cultura por meio de cursos à população local é especialmente importante na Juréia. Isso porque são mais de vinte comunidades que vivem em uma área conflituosa e que tem a preservação de sua tradição ameaçada. Há 20 anos, a região se transformou em Estação Ecológica, a E.E. Juréia-Itatins, medida que proibiu todas as atividades caiçaras: pesca, caça e extrativismo vegetal. Esta situação obrigou muitos moradores a deixarem o local, migrando para bairros vizinhos.

Desde setembro de 2004, está em tramitação um projeto de lei para que as comunidades possam utilizar algumas áreas da Juréia de modo sustentável. “Queremos fazer nossas atividades preservando o meio ambiente. A lei precisa mudar para que a gente possa trabalhar”, relata Prado.

No dia 27 de abril, foi realizada uma consulta pública para redefinir os limites da E.E. Juréia-Itatins e para criação de novas unidades de conservação. Algumas áreas foram redefinidas como reservas de desenvolvimento sustentável e outras como parque estadual. Prado conta que na ocasião, foi decidido que algumas comunidades poderão viver dentro do parque. Ele espera que o governo faça todas as modificações legais de acordo com a proposta dos moradores.

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