Apnéia do sono pode ter relação com posição do maxilar

terça-feira 25 de abril de 2006.
 
Pesquisa aponta solução simplificada para a apnéia obstrutiva do sono: aparelhos orais para os maxilares, que reduzem a necessidade de cirurgia. O estudo mostra ainda que a mamadeira pode estar relacionada ao prejuízo no desenvolvimento do maxilar e desencadearia uma série de desorganizações respiratórias.

Uma pesquisa mostra que um simples aparelho dentário pode corrigir a apnéia obstrutiva, síndrome que provoca o fechamento da faringe durante o sono e atormenta as noites de cerca de 2% das crianças no mundo. A pesquisa, realizada no Departamento de Neurologia da Unicamp, observa que as crianças que sofrem desse distúrbio têm os maxilares pequenos e retraídos (mais próximos do pescoço). Um dos fatores que provoca essa diminuição é a amamentação em mamadeiras, que desestimula o crescimento dos blocos ósseos orofaciais e a respiração nasal.

“A mamadeira desequilibra tudo. Com ela, a criança engole muito fácil e rápido, sem exercitar a musculatura da face, prejudicando a formação dos maxilares e estimulando a respiração oral. A língua também muda de posição, fica com a chamada ’ponta baixa’ e dorso alto, reduzindo o espaço respiratório da garganta”, aponta a cirurgiã dentista Rosana Albertini, autora da pesquisa.

Respirando pela boca, as mucosas intraorais ressecam e ampliam a probabilidade de ocorrerem inflamações crônicas, como faringites, sinusites e amidalites. As mucosas intraorais e a língua, agredidas pelo ressecamento e inflamações, aumentam em 30% o volume. Essa hipertrofia invade o espaço vazio aéreo e impede que o ar passe mecanicamente do nariz para a garganta. O ar poluído e seco das zonas urbanas piora o quadro porque também agride as mucosas, ressalta a pesquisadora. “Nosso ar tem pouca umidade, devido à agressão ambiental. A tendência é que a apnéia obstrutiva aumente muito nos próximos anos por conta disso”.

A pesquisa desenvolvida por Albertini mostra que estimular os maxilares para frente pode prevenir a apnéia obstrutiva do sono, sem que haja a necessidade de recorrer a cirurgias. Uma vez deslocados para frente, cria-se entre a base da língua e a retrofaringe um espaço vazio para a respiração. “O traçado da língua, do palato mole, da úvula [a campainha], adenóide, amídala, da retro faringe e do espaço vazio devem ser respeitados para que o ar encontre espaço para passar do nariz para a faringe e ser inspirado para os pulmões. Esse espaço vazio deve ter, no mínimo, 10 mm de comprimento”, explica. Abaixo dessa medida, a criança já sofre com problemas obstrutivos. Um espaço menor que 4 mm pode provocar um acidente vascular cerebral pela falta de oxigenação. O tratamento com o dentista pode começar cedo, a partir dos dois anos de idade.

A apnéia obstrutiva do sono provoca dessaturação do oxigênio no sangue, diminui a oxigenação cerebral e o coração pode ter taquicardias. No dia a dia, a criança pode sofrer com sonolência, depressão e dificuldade de atenção e memorização provocadas pela noite mal dormida. Além disso, a falta do sono profundo pode acarretar deficit no crescimento.

Com a apnéia, a criança acorda muitas vezes durante a noite e não tem secreção adequada do hormônio do crescimento, cujo pico se dá durante o sono profundo. “Se não for tratada, ela tem grandes chances de não crescer, não engordar e ser um adulto pequeno”, adverte Rubens Reimão, neurologista especialista em distúrbios do sono.

Distúrbios do sono e TDAH Reimão conta que os distúrbios do sono possivelmente estão relacionados a três tipos de fatores: psicológicos ou emocionais, biológicos (como a apnéia) e a maus hábitos adquiridos por trabalhados em turnos da noite ou, cada vez mais comum entre adolescentes, pela permanência infinita na internet. “A televisão já foi um problema importante, mas a internet é hoje o grande problema de distúrbio de sono em adolescentes, porque eles controlam a programação e ficam horas e horas nisso”. Mas, segundo o médico, a apnéia é o caso mais grave e preocupante. “A desoxigenação do cérebro traz alterações cognitivas”, diz. Segundo ele, um grupo muito afetado pelo distúrbio são as crianças com deficit de atenção e hiperatividade (TDAH): por volta de 10% a 20% dessas crianças têm apnéia, o que colabora muito para piorar o quadro.

Elas roncam, dormem de olhos abertos, têm maxilares pequenos, respiram pela boca, rangem os dentes, falam dormindo, mexem-se muito na cama, têm pesadelos com a morte, acordam com medo, choram dormindo, gritam, têm dores de cabeça durante o dia e não conseguem se concentrar. Devido à dificuldade de respirar, ficam sempre com o nariz entupido, dor de garganta, rinite crônica, mau hálito, tontura, mudança de voz (estão sempre com voz de gripadas), agitam pés e mãos, babam ou engasgam com a saliva porque respiram pela boca.

“Esse sintomas são comuns nas crianças que sofrem do distúrbio do sono, mas naquelas com deficit de atenção e hiperatividade a incidência e a freqüência com que aparecem são maiores”, comenta Rosana Albertini que, sob orientação de Reimão, começa a desenvolver no Departamento de Neurologia da Unicamp pesquisas sobre o distúrbio do sono nas crianças com o TDAH.

Insônias, mães e bebês

Outro grupo em que distúrbios do sono são bastante comuns é nos bebês. Reimão conta que a insônia é normalmente provocada pela alteração do controle da mãe em relação à criança. “A mãe que atende muito às solicitações do bebê durante a noite pode atrapalhar. Ela pega no colo, acende a luz, conversa, nina. Com isso, a criança desperta e demora mais ainda para voltar ao sono. Esse ritual piora cada vez mais a qualidade do sono”, explica. Entre os distúrbios,os mais freqüentes são sonilóquio (falar enquanto dorme), ranger de dentes, sonambulismo, pesadelo, terror noturno e sonolência excessiva de dia.

“De modo geral, os distúrbios do sono nas crianças não apresentam risco, mas costumam comprometer a qualidade de vida delas e eventualmente dos seus familiares”, conta Eduardina Telles Tenenbojm, pediatra e psicoterapeuta, que desenvolve na USP uma pesquisa sobre o perfil psicológico das mães de bebês que têm insônia.

De acordo com ela, a insônia dos lactentes é um quadro freqüente nas clínicas pediátricas e para os quais, na maioria dos casos, os medicamentos não são indicados. Os bebês, geralmente com idades entre 3 meses a 2 anos, têm dificuldade de iniciar ou de manter o sono durante a noite. Nesse estudo, Eduardina Tenenbojm pôde constatar que os familiares dos bebês que não dormem sentem sonolência diurna, irritabilidade, dificuldades de concentração e de memória, sintomas que caracterizam uma síndrome de privação de sono.

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