Novas análises chacoalham árvore genealógica dos anfíbios

sexta-feira 17 de março de 2006.
 
A classificação dos anfíbios do mundo todo acaba de passar por uma grande reforma. A nova proposta está em monografia recém publicada pelo Museu Americano de História Natural em Nova Iorque, resultado do trabalho de uma equipe internacional de pesquisadores.
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filogenia
Filogenia mostra que análises não alteram relações entre grandes grupos de vertebrados

Uma equipe internacional, liderada por pesquisadores do Museu Americano de História Natural em Nova Iorque, acaba de rever a classificação dos anfíbios. Trata-se de uma filogenia (semelhante a uma árvore genealógica) que engloba todas as famílias conhecidas de anuros (sapos, rãs e pererecas), salamandras e cobras-cegas. Célio Haddad, do Laboratório de Herpetologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Rio Claro e co-autor do estudo, ressalta que a nova filogenia é a maior já feita para vertebrados e deverá “chacoalhar” a sistemática tradicional do grupo.

A monografia foi publicada este mês no periódico do museu norte-americano Bulletin of the American Museum of Natural History (no 297). A análise inclui 532 espécies de anfíbios, de um total de cerca de 5.800 hoje descritas. Todas as famílias, e quase todas as sub-famílias (com exceção de uma), foram consideradas. Além disso, consta da monografia boa parte dos gêneros que se conhece. O intuito foi utilizar uma amostragem bem distribuída para verificar se os agrupamentos em famílias correspondem à realidade evolutiva de terem sido originados por um ancestral comum, ou seja, se são monofiléticos. Os resultados mostram que muitos grupos não são monofiléticos, o que torna os conjuntos incorretos de acordo com as regras da taxonomia. Para fazer uma analogia em escala humana, só os descendentes do fundador de uma família podem fazer parte dela. Assim, um grupo definido como os descendentes do seu pai não pode incluir os seus tios.

Célio Haddad comenta que muita pesquisa é feita nessa área, mas é freqüente que se detecte erros sem corrigi-los. A conclusão mais comum desse tipo de trabalho é que “são necessários mais estudos para que possamos determinar a classificação correta”. Não foi isso que os autores da monografia fizeram. Ao contrário, sua grande contribuição é propor uma nova classificação, ou taxonomia, dos anfíbios atuais. Para isso, foram criadas várias unidades taxonômicas novas. “Todo mundo reconhece que a classificação não reflete a natureza; mas a área permanece estagnada, sem refletir avanços no conhecimento”, afirma o especialista brasileiro. Para ele, as alterações profundas que foram propostas estimularão pesquisadores a reagir e buscar refutar as mudanças com as quais não concordam. “Assim a ciência progride”.

Os resultados foram obtidos a partir de seqüências de DNA. A vantagem desse tipo de dados é que ele dá acesso a uma quantidade maciça de informação, que permite que se faça inferências filogenéticas. Haddad ressalta que alguns pesquisadores defendem o uso de características morfológicas em vez de genéticas. Porém, ele explica que os anuros são animais simplificados, com adaptações para modo de vida que fazem com que espécies tenham características semelhantes mesmo que não sejam aparentadas. Análises ósseas são úteis, mas muito trabalhosas. A nova classificação pode direcionar futuras pesquisas, com estudos mais detalhados da morfologia em grupos de espécies com classificação controversa, que podem refutar ou confirmar o que foi publicado na monografia. O ideal, diz o herpetólogo, será ter ao fim uma árvore filogenética de consenso, que inclua dados genéticos e morfológicos.

Além do avanço na área específica de conhecimento, uma classificação que reflita a evolução do grupo tem implicações importantes para desvendar diversas questões científicas. Um exemplo é um trabalho em fase de publicação do qual Célio Haddad também participa, que utiliza essa filogenia para ajudar a compreender extinções e declínios populacionais de anfíbios. Investigar se os padrões que se observa têm correlação com o parentesco entre as espécies pode ser uma ferramenta muito importante para compreender suas causas.

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