Arqueologia

Ameaças ao patrimônio da humanidade na China

quarta-feira 25 de janeiro de 2006.
 
Mais de 50 mil Budas esculpidos nas Grutas de Yungang, na China, estão sendo corroídos pela ação de pó e dióxido sulfúrico vindos das indústrias e minas de carvão da região. Os especialistas associam a má conservação à força de intempéries como sol, vento e chuva, sendo necessárias medidas de emergência para evitar a deformação. “O governo chinês não é democrático e, na questão da preservação do patrimônio, está mais preocupado com os vestígios do império chinês do que com o budismo indiano, apesar de a maioria da população se declarar budista.”, diz Pedro Paulo Funari, arqueólogo e professor da Unicamp.

Mais de 50 mil Budas esculpidos nas Grutas de Yungang, na China, estão sendo corroídos pela ação de pó e dióxido sulfúrico vindos das indústrias e minas de carvão da região. Os especialistas associam a má conservação à força de intempéries como sol, vento e chuva, sendo necessárias medidas de emergência para evitar a deformação, de acordo com uma pesquisa divulgada na semana passada pela agência de notícias EFE. “O governo chinês não é democrático e, na questão da preservação do patrimônio, está mais preocupado com os vestígios do império chinês do que com o budismo indiano, apesar de a maioria da população se declarar budista.”, diz Pedro Paulo Funari, arqueólogo e professor da Unicamp.

As indústrias e minas de carvão na China são altamente poluentes e de acordo com Funari, dificilmente o governo chinês tomará atitudes que possam diminuir o ritmo dessas atividades para preservar os budas. Segundo ele, as minas de carvão são responsáveis por grande parte da geração de energia barata do país e absorvem a mão de obra desqualificada existente lá. Além disso, o patrimônio religioso é subordinado ao desenvolvimento econômico, e a prioridade é a melhoria de vida da população.

A poluição é uma ameaça aos objetos arqueológicos porque sua ação é gradativa e perceptível só a longo prazo, daí a importância de estudos que detectem alterações e alertem os governos para que tomem providências.

Os vestígios arqueológicos espalhados pelo mundo só são conhecidos hoje devido a práticas de conservação. Em Atenas, capital da Grécia, por exemplo, desde 2004 a legislação limita o uso dos automóveis e prioriza o transporte público para diminuir a quantidade de gases poluentes em contato com a Acrópole. Essa construção é o mais antigo e importante monumento da civilização ocidental e recebe mais poluição devido a sua localização no alto da cidade.

Em Yungang está o maior grupo de grutas preservado do país, tombadas pela Unesco como Patrimônio Cultural Mundial em 2001. Esse título trouxe benefícios culturais e econômicos, mas o órgão não tem poder de gerenciamento ou decisão e pode apenas sugerir ações de preservação.

Patrimônio brasileiro

No Brasil, os vestígios de valor patrimonial são considerados recentes e datam em sua maior parte do século XVIII, como as cidades coloniais mineiras, edifícios religiosos e fortalezas em grandes cidades como Salvador e no Rio de Janeiro. A responsabilidade de conservação dos locais tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) é dos municípios, que nem sempre conseguem conter a intervenção da população. Nas cidades de Ouro Preto e Mariana, no interior de Minas Gerais, por exemplo, há impasses quanto à colocação de objetos contemporâneos nas casas, como antenas parabólicas, construções irregulares, bem como quanto ao livre trânsito de veículos pesados. “Ações simples como a manutenção de redes de TV a cabo em toda a cidade e o investimento em carros elétricos para transportar as cargas vindas das rodovias para abastecimento da cidade podem agradar aos dois lados”, afirma o arqueólogo da Unicamp.

Quanto às grandes cidades brasileiras, a poluição ainda não foi apontada como vilã da preservação do patrimônio. Desde 1993 vigora no país uma legislação que fixa os limites quanto à emissão de poluentes para os veículos, porém não há inspeção para os automóveis fabricados antes dessa lei. Se isso ocorresse, de acordo com Funari, os níveis de poluição cairiam (e consequentemente a futura ameaça à arquitetura também), mas 60% dos automóveis teriam que deixar de circular, o que tornaria a inspeção uma decisão politicamente inviável.

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