Recursos hídricos

Cálculo esclarece sobre comércio internacional e uso sustentável da água como commodity

terça-feira 10 de janeiro de 2006.
 
Através do cálculo da quantidade de água que se utiliza para a produção de commodities (água virtual), pesquisadores do Núcleo de Estudos de População (Nepo), da Unicamp, podem entender melhor como funciona o comércio internacional entre os países que possuem escassez e os que possuem abundância de recursos hídricos. Trata-se de uma perspectiva inédita no gerenciamento de recursos hídricos que foi publicada no artigo Água Virtual: O Brasil como grande exportador de recursos hídricos, apresentado no XVI Simpósio Brasileiro de Recursos Hídricos, que aconteceu no final do ano passado em João Pessoa, na Paraíba.

Através do cálculo da quantidade de água que se utiliza para a produção de commodities (água virtual), pesquisadores do Núcleo de Estudos de População (Nepo), da Unicamp, podem entender melhor como funciona o comércio internacional entre os países que possuem escassez e os que possuem abundância de recursos hídricos. Trata-se de uma perspectiva inédita no gerenciamento de recursos hídricos que foi publicada no artigo Água Virtual: O Brasil como grande exportador de recursos hídricos, apresentado no XVI Simpósio Brasileiro de Recursos Hídricos, que aconteceu no final do ano passado em João Pessoa, na Paraíba.

A partir desse conceito, os pesquisadores sabem o quanto de água virtual os países exportam ou importam e procuram encontrar maneiras sustentáveis da utilização deste recurso. Segundo Roberto Luiz do Carmo, pesquisador do Nepo, sociólogo e doutor em demografia, o Brasil é um grande exportador de água virtual através da soja e da carne bovina. Em média, cada quilo de soja exige dois mil litros de água para ser produzido. Já o quilo da carne bovina exige 43 mil litros de água. Neste cálculo entram não só a água consumida diretamente pelo animal, que varia de 50 a 60 litros por dia, mas também a água utilizada na produção da alimentação do gado.

Carmo lembra que o Brasil é o segundo maior país detentor de água doce do mundo, atrás somente do Canadá, e por isso é lógico que utilize economicamente este recurso. A questão levantada pelo sociólogo é sobre a sustentabilidade a médio e longo prazo desse processo. “A expansão da produção de soja na Amazônia, por exemplo, traz conseqüências tanto sociais como ambientais”, diz. Além do desmatamento, a expansão da soja pode comprometer as fontes de água doce e ainda desarticula os pequenos agricultores que são incorporados pelos grandes latifúndios e se vêem obrigados a ir para os centros urbanos.

Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior indicam que a exportação de água virtual vem crescendo ao longo dos últimos anos. Em 2002, o país exportou 52,2 bilhões de metros cúbicos (m3) de água virtual, em 2003 foram 65,5 bilhões m3 e no ano seguinte este número subiu para 73,8 bilhões. A pesquisa aponta para o fato de que a agricultura consome 60% do total de água utilizada no país, mais do que o consumo industrial e doméstico juntos.

O Instituto para a Educação da Água da Unesco e o World Water Council alegam que a política de comércio de água virtual alivia a pressão sobre os países que possuem poucos recursos hídricos, mas este comércio deve vir acompanhado de uma política de conscientização para o uso de produtos que demandem uma quantidade menor de água.

O consumo de produtos que necessitam de muita água para sua produção é alto no mundo, como por exemplo, a soja e o arroz. Já os produtos como o milho e a batata, que necessitam de menos água para produção, são menos consumidos. Carmo argumenta que uma das saídas para um planejamento sustentável da utilização de recursos hídricos é a reestruturação do cardápio. A própria globalização traz aspectos negativos nesse sentido, “a disseminação da comida tipo fast food, baseada em hambúrguer e refrigerante (produtos que demandam muita água para a produção), não é boa do ponto de vista do gerenciamento dos recursos hídricos”, diz o pesquisador

Outra saída para a sustentabilidade é o planejamento da agricultura. Isso significa que a agroindústria não deve somente se preocupar com lucro a curto prazo, como é o caso das plantações de soja na Amazônia. A longo prazo as conseqüências são a escassez de recursos hídricos e a depredação da biodiversidade. Roberto Carmo afirma ainda que o Estado deve estabelecer um planejamento para uma exploração racional desses recursos.

A pesquisa levanta também a questão da segurança hídrica, que é o mínimo de água que cada cidadão precisa diariamente. A ONU estabelece que este mínimo é de 100 litros por dia, mas o consumo médio no mundo varia de 50 a 150 litros ao dia. Esse número, no entanto, é polêmico: “em uma cidade grande com água encanada é difícil fazer esse cálculo e em muitos casos o consumo de água diário supera os 150 litros”, diz o pesquisador. Além disso, o consumo varia de acordo com a disponibilidade de água de cada país.

A segunda etapa da pesquisa começa este ano e se divide em duas frentes: em um primeiro momento os pesquisadores vão estudar o destino da soja que é exportada e qual a implicação direta na eficiência dos recursos hídricos; a segunda parte é o estudo da plantação de eucaliptos no cerrado, região que possui pouca água.

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