Economia

Novo índice avalia sustentabilidade das empresas

quarta-feira 11 de janeiro de 2006.
 
O Índice de Sustentabilidade Empresarial lançado pela Bolsa de Valores de São Paulo busca avaliar o desempenho das empresas em termos de responsabilidade social e sustentabilidade financeira e ambiental. Vinte e oito delas foram selecionadas para integrar o índice. Nenhuma delas pertence aos setores de tabaco, armas ou bebidas alcoólicas, cuja possível inclusão ao índice gerou muita controvérsia durante seu processo de criação.

Desde o início de dezembro, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) conta com um novo índice aplicado ao mercado de ações - o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE). Esse é o quarto índice desse tipo que existe no mundo, e sinaliza uma tendência das bolsas de valores. O ISE visa destacar as empresas (e, conseqüentemente, valorizar suas ações) que, segundo avaliação da Bovespa, apresentam melhores desempenhos em termos de responsabilidade social e sustentabilidade financeira e ambiental.

Para este primeiro ano de existência do índice, 28 empresas foram selecionadas para integrar o índice. Nenhuma delas pertence aos setores de tabaco, armas ou bebidas alcoólicas, cuja possível inclusão ao índice gerou muita controvérsia durante o processo de criação do ISE.

O novo índice, de acordo com a Bovespa, atende a uma demanda crescente de investidores preocupados em aplicar seus recursos nos chamados investimentos socialmente responsáveis (SRI, sigla em inglês). “O ISE tem por objetivo refletir o retorno de uma carteira composta por ações de empresas com reconhecido comprometimento com responsabilidade social, sustentabilidade empresarial, e atuação na promoção de boas práticas no meio empresarial brasileiro”, afirma a Bovespa em documento explicativo sobre o novo índice. Para os investidores, o ISE também serve como uma referência para indicar quais ações, dentre as negociadas pela Bovespa, são mais seguras a longo prazo, já que empresas que seguem os critérios de sustentabilidade empresarial tendem a representar menor risco ao investimento.

As 28 empresas cujas ações fazem parte do índice (34 ações no total) foram eleitas a partir das respostas dadas a um questionário enviado às 121 companhias responsáveis pelas 150 ações mais negociadas na Bovespa. O questionário e a metodologia do índice foram elaborados pelo Centro de Estudos de Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (Gvces) a partir do conceito “triple bottom line”, que contempla critérios relacionados às dimensões econômico-financeira, social e ambiental da sustentabilidade empresarial. Foram também incluídas questões referentes a mais duas dimensões (totalizando 5 grupos de indicadores): governança corporativa e informações gerais sobre as políticas de sustentabilidade da companhia e a natureza dos produtos que comercializa. Enquanto a primeira trata, por exemplo, da participação de acionistas minoritários nas decisões da empresa, a outra dimensão aborda, entre outras questões, se tais produtos geram riscos à saúde de quem os consome.

Critério de não-exclusão gerou polêmica

Embora empresas de tabaco, armas e bebidas alcoólicas não estejam entre as 28 que integram o ISE, a não-exclusão prévia desses setores da avaliação feita pela Bovespa foi alvo de críticas por parte de entidades da sociedade civil organizada. A decisão de que, a princípio, qualquer empresa (dentre as 121 que participaram da avaliação) pudesse ser incluída no índice, independente da natureza do produto comercializado, foi tomada pelo conselho deliberativo responsável pela criação e acompanhamento do índice. Das 9 instituições que integravam inicialmente o conselho, apenas o Instituto Brasileiro de Análises Sócio-Econômicas (IBASE) e o Ministério do Meio Ambiente eram a favor da exclusão a priori dos setores empresariais cujas atividades representassem riscos elevados à saúde ou ao meio ambiente.

Com a vitória do critério da não-exclusão prévia, o IBASE decidiu, em abril de 2005, retirar-se do conselho. Em nota de esclarecimento publicada à época, a entidade justificou sua saída argumentando que incluir determinados setores seria uma contradição em relação aos princípios de responsabilidade social que o índice almejava avaliar. Junto com o IBASE, outras entidades da sociedade civil organizada passaram a pressionar a Bovespa para que a decisão a favor da não-exclusão prévia fosse revertida.

Segundo a socióloga Paula Johns, coordenadora da Rede Tabaco Zero (RTZ), uma das organizações que liderou o movimento, “seria inaceitável e lamentável que o primeiro índice dessa natureza no país não levasse em consideração o produto comercializado pelas empresas que pleiteiam essa forma privilegiada de agregar valor aos seus papéis”. Apesar do critério de não-exclusão continuar valendo, a socióloga diz que a pressão exercida sobre a Bovespa fez com que o questionário do ISE enviado às empresas fosse modificado, dificultando que os setores tabagista, armamentista e de bebidas alcoólicas entrassem no índice devido ao acréscimo de perguntas relativas aos riscos a saúde e segurança oferecidos pelos produtos comercializados.

“Da forma como o primeiro questionário tinha sido elaborado, tenho certeza que a Souza Cruz (indústria de tabaco) estaria neste grupo”, afirma. “No final, o resultado do índice acabou sendo satisfatório para nós”, avalia a coordenadora da RTZ, referindo-se ao fato da indústria citada não estar entre as 28 que integram o ISE. Para ela, entretanto, ainda há um ponto importante que deve ser pleiteado para que o índice cumpra adequadamente seu papel: transparência. Segundo a socióloga, é preciso que os questionários respondidos pelas empresas sejam divulgados, para que a sociedade possa monitorar se as respostas dadas por elas correspondem de fato à realidade de suas práticas.

A ausência dos setores de tabaco, armas e bebidas alcoólicas não impede, todavia, que o ISE continue sofrendo algumas críticas. A lista de empresas integrantes do ISE contempla setores como papel e celulose, energia elétrica e siderurgia, cujas atividades causam impactos ambientais significativos e, portanto, possuem práticas questionáveis em termos de sustentabilidade.

Para saber mais:

- Veja a lista das empresas componentes do ISE

- Conheça a metodologia do ISE

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