Saúde

Qualidade nos serviços é fundamental para controle da epidemia da AIDS

segunda-feira 5 de dezembro de 2005.
 
O Ministério da Saúde divulgou no dia 30 de novembro o Boletim Epidemiológico AIDS/DST 2005, que traz dados atuais sobre a doença no país. As regiões norte e nordeste são as que apresentaram dados mais preocupantes. Segundo o boletim, a epidemia cresceu quase 95% entre 1998 e 2004. Maranhão, Pará, Acre, Piauí tiveram crescimento superior a 100%. Em Roraima, onde a situação é ainda mais crítica, o aumento foi de 274% nos anos avaliados. Nas regiões sul e sudeste, a situação é oposta: houve queda no número de pessoas infectadas pelo vírus. “O Brasil parece abrigar diferentes sub-epidemias de HIV e, no que se refere à oferta e qualidade dos serviços disponíveis, essa diversidade também está presente”, comenta Mônica Malta, psicóloga e pesquisadora do Centro de Informação Científica e Tecnológica da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

O Ministério da Saúde divulgou no dia 30 de novembro o Boletim Epidemiológico AIDS/DST 2005, que traz dados atuais sobre a doença no país. As regiões norte e nordeste são as que apresentaram dados mais preocupantes. Segundo o boletim, a epidemia cresceu quase 95% entre 1998 e 2004. Maranhão, Pará, Acre, Piauí tiveram crescimento superior a 100%. Em Roraima, onde a situação é ainda mais crítica, o aumento foi de 274% nos anos avaliados. Nas regiões sul e sudeste, a situação é oposta: houve queda no número de pessoas infectadas pelo vírus. “O Brasil parece abrigar diferentes sub-epidemias de HIV e, no que se refere à oferta e qualidade dos serviços disponíveis, essa diversidade também está presente”, comenta Mônica Malta, psicóloga e pesquisadora do Centro de Informação Científica e Tecnológica da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Desde 1996 o Governo Federal, por meio do Programa Nacional de Aids, disponibiliza gratuitamente os medicamentos da terapia anti-retroviral a cerca de 150 mil pacientes. O Programa se tornou referência mundial, mas para que funcione efetivamente, é imprescindível a aderência da população às políticas de prevenção e tratamento. “A qualidade do relacionamento entre pacientes e profissionais da saúde é muito importante, pois disso depende a adesão ao tratamento e o modo como os soropositivos encararão suas possibilidades de continuar a batalhar e também participar da prevenção da doença”, observa Maria Lúcia Araújo Sadala, enfermeira e professora da UNESP/Botucatu.

Sadala desenvolveu uma pesquisa na Faculdade de Medicina de Botucatu sobre as dificuldades dos profissionais da saúde na percepção do paciente e do tratamento mais adequado a cada um. A pesquisa foi publicada no livro Cuidar de pacientes com AIDS - o olhar fenomenológico, lançado em 2001.

A pesquisadora conta que o relacionamento entre médicos e pacientes evoluiu acompanhando os avanços técnico-científicos, especialmente os recursos farmacológicos, mas embora atenuado ou disfarçado, o preconceito ainda existe, sendo mais ou menos acentuado dependendo do local de atendimento, do nível sócio-econômico e do preparo dos profissionais. “Não se tem mais um doente com a aparência que tinham os primeiros doentes. Mas ainda é grande medo de contrair uma doença fatal. Penso que isto mantém muitos comportamentos discriminatórios, que acontecem também em outras doenças transmissíveis graves”.

Outro estudo, coordenado pela pesquisadora da Fiocruz, Mônica Malta, analisou os comportamentos e percepções de 40 médicos que atendem pacientes com AIDS em seis hospitais universitários do Rio de Janeiro. A pesquisa, publicada em outubro nos Cadernos de Saúde Pública, apontou lacunas no atendimento de pessoas com HIV/AIDS, como serviços sobrecarregados, equipes insuficientes para a demanda de população e pouco tempo disponível para os profissionais poderem conhecer cada paciente e atendê-los de forma mais completa. “Com isso, muitas vezes, o paciente acaba saindo do atendimento sem ter a compreensão necessária sobre qual o seu problema, qual o tratamento que ele está recebendo e coisas do tipo”.

Um dos grandes limites à interação entre profissionais da saúde e pacientes ocorre quando o médico não tem tempo ou preparo para conversar com o paciente sobre as possibilidades de adesão ao tratamento, os possíveis efeitos colaterais e a necessidade de tomar os medicamentos na hora certa. “O diálogo permite ao médico e ao paciente construírem juntos um esquema de tratamento que seja tecnicamente eficaz, mas que também leve em conta as condições de vida do paciente”, comenta Malta.

A Unidade de Assistência e Tratamento (UAT) do Programa Nacional de AIDS oferece oficinas de capacitação para os profissionais de saúde. Porém, como muitos deles trabalham horas demais, freqüentemente têm mais de um emprego, a capacitação e atualização constante, fundamental nessa área, acaba ficando de lado. “Na nossa realidade, é quase impossível para estes profissionais se ausentar do serviço vários dias para uma capacitação mais ampla, que englobe vários assuntos”.

Atenção aos usuários de drogas

Malta, juntamente com um pesquisador da Fiocruz e uma pesquisadora do Programa Nacional de DST/AIDS, escreveu um manual de referencia para profissionais de saúde que atendem pacientes com AIDS usuários de álcool ou drogas. O “Guia para tratamento e manejo integral de usuários de drogas vivendo com HIV/AIDS na América Latina”, será publicado ainda este ano e a intenção é iniciar em 2006 uma série de treinamentos para os profissionais de saúde que atendem esses pacientes.

Tratamento requer esforço e atenção

Os problemas da falta de aderência à terapia são mais graves no caso de pacientes que utilizam a terapia antiretroviral de alta potência (cuja sigla em inglês é HAART). Esta terapia engloba o uso de diversos medicamentos e se tornou o tratamento padrão para alcançar a máxima supressão viral entre indivíduos com HIV/AIDS.

A HAART, além de proporcionar uma vida mais longa, proporciona também um aumento na qualidade de vida, relacionada diretamente a uma melhor condição física e emocional. Por serem medicamentos que não podem ser esquecidos ou usados de forma irregular, este tratamento requer um grande esforço e atenção por parte do paciente. O período de tempo em que os medicamentos permanecem ativos na corrente sanguínea e a interação deles com alimentos e outros medicamentos fazem com que a constância, a observação dos horários de doses e a regularidade na manutenção do tratamento sejam fatores essenciais para a eficácia do tratamento. O fato de pular apenas algumas poucas doses pode levar a um aumento na replicação do vírus da AIDS. Como são muito freqüentes as mutações do HIV, o aumento da sua replicação pode rapidamente levar a uma resistência ao medicamento utilizado, com conseqüente incapacidade de combate ao vírus.

Sob o ponto de vista de saúde pública, essa falha pode levar a uma possível disseminação de variantes virais multi-resistentes, ou seja, resistentes a diversos medicamentos, na comunidade. Por isso, é importante, tanto para o indivíduo quanto para a comunidade, ter certeza disponibilizar os serviços de apoio necessários para aumentar a aderência ao tratamento.

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