Mestrado em divulgação científica e cultural - 2010.
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Divulgação e cultura científica
"Há um conceito bastante difundido de que cabe à divulgação científica
preencher uma lacuna de informação que o leigo não tem em relação à
ciência, isto é, que o leigo é, portanto, analfabeto cientificamente. Por
isso os norte-americanos chamam essa atividade de scientific literacy, que é alfabetização científica, isto é, tornar, portanto, o leigo informado
das questões da ciência. A partir de surveys e enquetes sobre essa
questão, notaram que também nos Estados Unidos o percentual da população
que tinha informação sobre muitas questões, eventos ou fatos científicos
era relativamente pequeno. Esse déficit de informação - teoria do déficit
- orientou durante muito tempo as atividades de divulgação. O que cabia à
divulgação científica? Cabia suprir o déficit de informação da população
leiga em relação à ciência. Portanto, considerava-se como pressuposto que
a população leiga era ignorante do ponto de vista científico e era preciso
então levar a ela o conhecimento. Com o decorrer das atividades em vários países, na Inglaterra, na França,
na Europa de modo geral, e com o reflexo disso em países como o Brasil,
essa teoria do déficit foi sendo substituída por uma visão mais
democrática do papel da divulgação científica. Nessa visão, não cabe à
divulgação científica apenas levar a informação, mas também atuar de modo
a produzir as condições de formação crítica do cidadão em relação à
ciência. Não só cabe à divulgação a aquisição de conhecimento e
informação, mas a produção de uma reflexão relativa ao papel da ciência,
sua função na sociedade, as tomadas de decisão correlatas, fomentos, aos
apoios da ciência, seu próprio destino, suas prioridades e assim por
diante. Isso vai além da atitude inicial, na qual o cientista era o sábio,
o cidadão era o ignorante e o jornalista científico ou divulgador da
ciência era o construtor da ponte entre essas figuras, de maneira a suprir
o tal déficit de informação. Essa visão foi sendo enriquecida. E, na
Inglaterra, desenvolveu-se o que se chama public understanding of science,
que é diferente do scientific literacy, do ponto de vista americano e, em
seguida, um conceito que é ligado ao primeiro, mas um pouco diferente, que é o public awareness of science. Um é o entendimento público de ciência, e
o outro é a consciência pública da ciência. Nesses casos, o que está sendo
enfatizado não é só a aquisição da informação, a possibilidade de acesso à
informação, mas a formação do cidadão no sentido em que ele possa ter
opiniões e uma visão crítica de todo o processo envolvido na produção do
conhecimento científico com sua circulação e assim por diante. Esse é um
conceito relacionado à cultura científica que modifica os modos de se
fazer e pensar a própria divulgação".
Entrevista com Carlos Vogt publicada na edição 100 da Revista ComCiência
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