Divulgação Científica, Relações de Poder e Cidadania

Science Communication, Power Relations and Citizenship

Graça Caldas[1]

Que vale a ciência? Que contribuição nos dá para a

compreensão do mundo em que vivemos?

Além de gerar tecnologia, é a ciência parte da Cultura?

José Leite Lopes (1988, p. 257)

O impacto da ciência e da tecnologia na sociedade pode ser aferido pelo grau de desenvolvimento de um país, considerando seus indicadores sociais e econômicos. Cotidianamente são divulgados, em diferentes plataformas e formatos, resultados da produção científica sem as devidas discussões e avaliações críticas para possibilitar a necessária compreensão, discernimento e posicionamento sobre os temas em debate para a participação da sociedade e tomada de posições em temas de interesse público. Ao mesmo tempo, cresce o número de formas criativas de divulgar ciência, seja por jornalistas, cientistas ou pelos cidadãos em geral, principalmente nas redes sociais. Essas iniciativas são estimuladas por políticas públicas de divulgação científica e por premiações nacionais e internacionais.

Nunca a ciência esteve tanto na berlinda, apesar de e por causa da crise mundial, seja por seus recursos cada vez mais escassos, particularmente no caso brasileiro, em função de políticas públicas míopes, que não reconhecem, adequadamente, o papel da ciência, da tecnologia e da inovação como motores do desenvolvimento social. Ao mesmo tempo, pesquisas de opinião pública demonstram grande interesse da sociedade pela ciência associada ao baixo nível de conhecimento e de apropriação da CT&I.

Mas qual é o valor do conhecimento, da educação, da cultura na sociedade? De que forma o conhecimento pode fortalecer a cultura científica para uma formação critica e cidadã? O conhecimento difere da informação cotidiana, volátil, frágil, que envelhece, enquanto “o conhecimento renova e leva você até mais longe”, como insistia em nos lembrar campanha por novas assinaturas do jornal O Estado de São Paulo nos anos 2009 e 2010. O conhecimento depende não apenas da informação, mas também e principalmente de sua contextualização, perspectiva histórica, de sua articulação com os diferentes setores da sociedade para a construção de uma cultura científica que leve em consideração ideias, valores, crenças e ideologias.

Por outro lado, a informação, a comunicação são fundamentais para o processo permanente de mobilização da sociedade, organização e articulação dos atores sociais e de saberes locais e regionais, em prol do uso social da ciência. Exatamente por isso, como observam Braga e Mafra (2000, p. 4), as pessoas precisam, além de informação, “compartilhar visões, emoções e conhecimentos sobre a realidade das coisas a sua volta, gerando a reflexão e o debate para a mudança”. Assim, a divulgação científica numa perspectiva crítica e analítica, em seus diferentes formatos e plataformas pode gerar uma cultura científica que permita aos cidadãos serem sujeitos e participantes ativos na construção de sua própria história.

Ao mesmo tempo, isto só será possível se houver diálogo e cooperação entre cientistas, jornalistas, educadores, divulgadores da ciência, empresários, parlamentares e dirigentes conscientes do papel da Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) para o bem-estar social. Para que isso ocorra, é necessário a participação efetiva da sociedade na definição das políticas científicas e culturais do país.

Além disso, é necessário garantir a apropriação do conhecimento científico que possibilite a tomada de posição e de decisões em questões críticas cada vez mais urgentes como mudanças climáticas, o uso intensivo de agrotóxicos na agricultura; os alimentos transgênicos; a exploração desenfreada da mineração; e até mesmo as tentativas seguidas de retomada da energia nuclear, contra tendências mundiais de valorização de energia renovável. No entanto, mudanças de trajetória, do rumo da história, dependem, fundamentalmente, de mobilização social e da educação para a aquisição de uma cultura científica plena e autônoma.

Esta educação científica pode ser feita de múltiplas maneiras, na mídia, na escola, nos museus, nos centros de ciência, nas redes sociais, nas ruas. De que forma, porém, essas iniciativas podem contribuir para uma percepção mais acurada da ciência, em que o radicalismo crescente da sociedade com o uso do fundamentalismo, da pseudociência, das fake news possam ser rechaçados? Qual a influência de valores, atitudes e crenças na percepção pública da ciência? Como o conhecimento científico desprovido de (pré)conceitos pode contribuir para uma leitura mais isenta e crítica da realidade?

A ciência seduz não só pelo que promete, mas também pelo fascínio que exerce sobre a opinião pública. Entretanto, nem sempre as pessoas estão preparadas para entender os riscos e os benefícios do conhecimento científico e tecnológico, nem compreendem, adequadamente, as relações de poder que perpassam suas decisões e ações. Qual seria, portanto, o papel dos educadores, comunicadores, cientistas, divulgadores da ciência, para a construção de uma “leitura crítica do mundo” para a aquisição e apropriação do conhecimento?

A leitura crítica do mundo implica, em primeiríssimo lugar, no aprendizado da linguagem e da possibilidade de percepção histórica do contexto social. Entretanto, as dificuldades para isso são imensas e passam pelos pífios resultados da pesquisa do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (INEP) de 2017. Os dados apontam que mais de 70% dos alunos do Ensino Médio não atingiram níveis considerados básicos na língua portuguesa [2].

Se os jovens não são capazes de interpretar textos básicos, obrigatórios das escolas, como esperar que possam compreender o papel da ciência na sociedade? Como esperar que consigam entender as evidências cientificas e diferenciá-las da pseudociência? E pior. São estes alunos que vão ingressar nas universidades, no mercado profissional, sem horizontes claros, sem habilidades para manejar com a realidade cada vez mais complexa. Cabe, portanto, aos educadores, cientistas, comunicadores em geral a difícil tarefa de superação dessas dificuldades encontrando mecanismos de formação científica e de divulgação científica que possam de alguma forma reduzir o gap entre o conhecimento formal e o não formal.

Relações assimétricas

Durante muito tempo as relações entre cientistas e jornalistas foram orientadas pela desconfiança mútua, pautadas pelas tensões na percepção dos processos de produção da informação e do conhecimento científico. Dessa forma, as relações assimétricas entre as duas áreas contribuíam para uma divulgação científica, cuja qualidade era muitas vezes criticada, quando não questionada. Mas recentemente, face ao interesse crescente da opinião pública pela ciência, alavancada pela credibilidade dos cientistas e da imprensa, ficou clara a responsabilidade social do cientista e do jornalista na popularização do conhecimento para a sociedade.

As relações se modificaram a partir do entendimento do modus operandi de cada área, motivadas agora pela vontade comum de colaboração na discussão dos dilemas éticos que permeiam a produção do conhecimento e também no processo de disseminação de informações com a qualidade necessária. O discurso dos especialistas, mediado e interpretado pela discurso do jornalista enseja um terceiro discurso, o da democratização da ciência, ajudando na construção da memória individual e coletiva do país.

Caldas assevera que já foi o tempo em que a ciência podia ser compreendida como verdade absoluta ou definitiva, em que os cientistas, dotados de conhecimento especializado e ou técnico, “eram os senhores absolutos, com competência inquestionável para orientar governantes ou parlamentares nas escolhas sobre investimentos públicos em CT&I e sobre o uso de tecnologias desenvolvidas” (CALDAS, 2010, p. 34).

Atualmente, com o aprendizado mútuo do papel de cada ator no processo de divulgação, as fronteiras estabelecidas foram substituídas por trabalhos colaborativos, que não se limitam mais a esses dois atores, mas que incluem os educadores e diferentes setores da sociedade no necessário e urgente diálogo para a formação de uma cultura científica plena.

Mas de que educação e cultura científica estamos falando? Da educação pela mídia? Nas escolas? Nas famílias? Sim, mas não apenas. Em tempos de redes sociais, a informação circula livremente, com os riscos inerentes a esse processo. Ao mesmo tempo, grupos de interesse, nem sempre em sintonia com o interesse público, se fortalecem com suas crenças, valores e idiossincrasias, exigindo da sociedade cada vez mais leituras acuradas de fatos, identificação de notícias falsas, leitura de cenários complexos, para tomadas de decisões.

Como, porém, lidar com forças antagônicas e estruturadas no espaço público com vozes dissonantes e desagregadoras que fomentam comportamentos retrógrados que promovem o obscurantismo, negando as evidências científicas e o pensamento crítico e autônomo? Qual o papel da divulgação científica neste cenário?

Ciência e poder

Divulgar ciência de forma crítica passa pelo conhecimento da história e trajetória da política científica, suas ações e efeitos. Inadiável compreender: em que medida os resultados do conhecimento científico são distribuídos igualitariamente à sociedade? Do que depende a democratização e o acesso ao conhecimento científico e de seus benefícios? Para além da disseminação dos resultados da produção científica, é fundamental que os divulgadores reflitam sobre as relações de poder que permeiam a produção e a apropriação do conhecimento pela sociedade.

No final da década de 90, Mayor (1998) já alertava para a responsabilidade social dos cientistas. Para ele, além do reconhecimento aos cientistas, pelo importante papel na construção e no avanço do conhecimento em diferentes áreas, “deveríamos ser cautelosos em comemorar seus triunfos de modo demasiado acrítico, pois eles foram distribuídos desigualmente”, observando, ainda, que “a ciência teve de lutar contra e responder a muitos interesses diferentes e nem sempre convergentes na sociedade” (MAYOR, 1998, p. 119-121).

Promessas fazem parte da divulgação científica inconsequente, como as curas frequentes do câncer, muitas vezes destacadas nas capas da revista Veja e em outros veículos de comunicação, gerando falsas esperanças, sem comprovação científica. Mas, às vezes, é importante lembrar, as promessas são dos próprios cientistas como foi o caso do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, com seu projeto “Andar de Novo”, quando anunciou o chute inaugural da Copa do Mundo de 2014 por um paraplégico usando um exoesqueleto. Os resultados esperados pelo mundo inteiro não corresponderam às promessas e foram criticados por muitos outros pesquisadores. Assim, o papel dos divulgadores vai além da mera repercussão das falas dos cientistas. Enfrenta, o duro desafio de questionar as pesquisas e suas conclusões apressadas, recorrendo à necessária cautela, ceticismo e a outros cientistas antes de divulgar feitos considerados miraculosos. As incertezas devem estar ao lado das promessas.

Kneller (1980), por sua vez, nota que a ciência é uma atividade humana e como tal está sujeita a interesses e circunstâncias históricas. Com relação específica ao uso da tecnologia, adverte que é fundamental o debate sobre seus usos porque estes dependem do conhecimento acumulado, ressaltando que cientistas e tecnólogos têm especial responsabilidade em contribuir para o esclarecimento público. “Devem comunicar os resultados de seus estudos sobre as consequências reais e potenciais da tecnologia ao público mais vasto possível e em termos facilmente entendidos pelo cidadão comum” (KNELLER, 1980, p. 268).

Como ensina Michel Foucault (1972) em seus estudos sobre Genealogia do Poder e do Saber, o indivíduo é uma produção do poder e do saber. Todo saber assegura o exercício de um poder. Não há saber neutro. Todo saber é político. E Machado (1981, p. 191), em suas leituras sobre Foucault faz uma síntese de suas ideias, elucidando que o poder não existe; existem sim, práticas ou relações de poder. O que significa dizer, complementa o autor:

que o poder é algo que se exerce, que funciona. E que funciona como um maquinaria, como uma máquina social que não está situada em um lugar privilegiado ou exclusivo, mas se dissemina por toda a estrutura social. Não é um objeto, uma coisa, mas uma relação. (MACHADO, 1981, p. 191)

Ao discutir a dificuldade de autonomia da ciência em relação aos poderes externos, e as diferenças entre o que ele nomeia como capital científico puro e capital científico institucionalizado, Bourdieu reforça que:

De fato, o mundo da ciência, como o mundo econômico, conhece relações de força, fenômenos de concentração de capital e do poder ou mesmo de monopólio, relações sociais de dominação que implicam uma apropriação dos meios de produção e reprodução, conhece também lutas que, em parte, têm por móvel o controle dos meios de produção. (BOURDIEU, 2004, p. 34)

Atualmente, o mesmo problema se coloca, embora em outra dimensão. Os avanços do conhecimento científico e seus usos sociais são inegáveis em diferentes áreas: medicina nuclear, saúde em geral, meio ambiente, agronomia, apenas para falar dos mais difundidos e polêmicos, embora nem sempre acessíveis à sociedade como um todo e que em não raras vezes atendem a interesses econômicos e privados, em detrimento do interesse público. Assim, para que essas conquistas sejam distribuídas de forma ética e igualitária, é necessário uma ampla difusão da informação científica e tecnológica para possibilitar reflexão pública sobre os usos, riscos e benefícios da ciência.

A prática da divulgação científica, seus conteúdos, linguagem têm sido objeto de estudos de vários campos. Ao examinar o papel da ciência como parte da cultura no mundo contemporâneo, especificamente na área de biociências, Luz e colaboradores (2013) fornecem elementos importantes para a reflexão da divulgação científica, que pode ser ampliada para outras áreas. Na visão desses pesquisadores que atuam na área de Saúde Coletiva:

Entre o processo de produção do conhecimento científico e tecnológico, através da prática da pesquisa, e a interiorização dos resultados desses saberes pelo senso comum dos indivíduos, grupos e classes que compõem a sociedade, para seu agir e pensar cotidianos, há uma “cascata de transmissão” de discursos socialmente hierarquizados, que vão do artigo pesquisador(es) autor(es) em seu campo, à publicidade (difusão social no sentido mais exotérico), divulgada através da mídia escrita, falada, visual e virtual, geralmente com a forma de propaganda midiática, com finalidades comerciais, ou mesmo ideológicas. Todos esses veículos podem ter em comum o fato de divulgar fatos, descobertas, ou avanços científicos com objetivos de convencimento (com finalidades comerciais ou normativas) dos conteúdos divulgados. Outros podem ter a finalidade oposta: debater e questionar a veracidade de tais “avanços”, denunciando seu caráter mercantil ou ideológico. (LUZ et al., 2013, p. 248-249)

Em tempos cada vez mais complexos, em que o conhecimento científico é decisivo para resoluções de problemas e tomadas de decisões em questões fundamentais até mesmo para a sobrevivência humana, os divulgadores precisam assumir uma postura crítica e analítica da produção científica e os cientistas, por sua vez, precisam sair de seus laboratórios para exercerem a imprescindível liderança política não mais apenas por meio de suas representações institucionais, mas também atuando diretamente junto aos poderes constituídos: Executivo, Legislativo e Judiciário. É hora de maior exposição pública para que possam, ao lado da sociedade civil, mudar o ritmo da história.

Aos educadores, divulgadores, jornalistas, a expectativa não é muito diferente, embora com ferramentas específicas, em que a palavra, a voz são essenciais. A escrita da história está igualmente em suas mãos. O papel da comunicação na construção da memória individual e coletiva é ímpar. Os jornalistas são historiadores do cotidiano e, portanto, exercem função chave na construção do imaginário popular e, portanto, são corresponsáveis pelas transformações sociais. Como sustenta Caldas (2005, p. 138):“a formação do imaginário social é calcada numa aldeia global, onde tudo se articula em teias multimídias, com informações fragmentárias, destituídas de contexto, sem uma perspectiva histórica, que permita interligar o presente e o futuro”. Cabe, portanto, a esses agentes históricos, aos divulgadores em geral estabelecerem os necessários nexos sobre o processo de produção científica, suas implicações políticas, econômicas e sociais para uma compreensão de seu significado com vistas à apropriação pública do conhecimento científico.

Nesse sentido, é inadiável uma divulgação científica sem ingenuidade, cética, contextualizada, crítica e analítica. Fioravanti (2013) reconhece, como muitos estudiosos da área, os inegáveis avanços na cobertura do Jornalismo Científico no Brasil, nos últimos 30 anos. No entanto, acredita que há ainda muito por fazer uma vez que, na sua percepção, o otimismo sobre a produção científica e sua divulgação ainda persiste, já que as “conclusões dos cientistas são geralmente apresentadas como verdades inquestionáveis” (FIORAVANTI, 2013, p. 320). Defende um enfoque mais amplo para o Jornalismo Científico em que os obstáculos, as incertezas naturais no cotidiano da atividade científica sejam incorporados aos textos de divulgação científica para maior esclarecimento da opinião pública.

O denominado jornalismo de precisão, essencial na prática do jornalismo de qualidade deve se somar à divulgação das controvérsias, dos financiadores da CT&I, dos inevitáveis questionamentos, das dúvidas, dos erros e acertos que fazem parte do cotidiano da pesquisa científica. Assim, diferentes aspectos de uma mesma pesquisa devem compor qualquer texto de divulgação científica. Para isto, porém, a formação qualificada dos divulgadores de ciência e de uma melhor capacidade de comunicação dos cientistas é essencial.

A formação do jornalista, do divulgador, não se configura, no entanto, apenas pela aquisição de conhecimento sobre o estado da arte e das questões principais de determinada área mas principalmente pela capacidade de articular fatos, contextualizar informações. Estabelecer relações de causalidade entre causas e consequências, para antever e alterar decisões políticas ou falta delas é imperioso e inadiável. E, sobretudo, manter um diálogo permanente entre os cientistas, jornalistas, divulgadores e educadores em geral, para uma atuação conjunta no desenvolvimento de uma divulgação mais competente e crítica, sem abrir mão da necessária autonomia de cada um desses atores sociais, considerando sua influência na formação do imaginário social.

Que papel simbólico, político, ideológico ou pedagógico (ou todos eles) para a reprodução desse saber vem tendo a denominada divulgação científica, através da crescente circulação de periódicos de grande divulgação, que mobiliza e tematiza incessantemente as pesquisas disciplinares, abrangendo projetos e descobertas científicas em praticamente todas as disciplinas, sobretudo nas ciências da vida, dirigindo seus resultados e propostas normativas ao público “educado” (com formação universitária), ou ao grande público (ensino médio completo ou incompleto), visto nesse contexto como “massa”? (LUZ et al., 2013, p. 251-252. Grifo dos autores.)

Ciência como bem público

A ciência é um bem público? De que forma a sociedade adquire informação, conhecimento para tomar suas próprias decisões em temas de interesse público e em situações de risco? Como o conhecimento é apropriado? Como possibilitar a participação informada e consciente da sociedade na área de Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I)? A promoção de debates públicos sobre a política científica nacional pode contribuir para a percepção da sociedade sobre os usos sociais da ciência?

Os debates sobre os riscos e benefícios da ciência e da tecnologia têm se ampliado face às crescentes incertezas da humanidade e que tomam conta do cotidiano das pessoas. Não é mais possível separar a ciência das decisões políticas que afetam a sociedade. Seus efeitos são cada vez mais presentes.

Então, se a ciência é um bem público e como tal deve ser preservada, qual o papel das políticas públicas na promoção do bem-estar social? Como usufruir das conquistas da ciência e da tecnologia para reduzir as mazelas sociais? Para melhor compreensão do conhecimento científico, é preciso reconhecer argumentos que integram, normalmente, o processo de construção da ciência, como enumeram Thomas e Durant:

Argumento econômico: existe uma conexão entre o nível de compreensão de ciências pelo público e o nível de saúde econômica da nação. O sucesso científico e tecnológico de uma nação é visto como um sinal de reputação internacional.

Utilidade: a compreensão de ciências e tecnologia é útil do ponto de vista prático, especialmente para quem vive numa sociedade científica e tecnologicamente sofisticada. Essas pessoas estariam melhor munidas para tomar decisões sobre dieta, segurança e outras coisas, avaliar a propaganda dos fabricantes e fazer escolhas mais sensatas enquanto consumidores.

Democrático: tomar parte de uma discussão debate ou decisão – compreensão de ciências. Decisões sobre transporte, política energética, teste de drogas e tratamentos, destino de resíduos.

Social: manter ligações entre ciências e cultura geral. A especialização e o crescimento da natureza técnica da ciência moderna são vistos como problemas sociais que levam a uma fragmentação incipiente – e à alienação da maior parte do público a respeito da ciência e tecnologia.

Cultural: a ciência é certamente a principal aquisição de nossa cultura e o público jovem precisa ser capacitado a entendê-la e apreciá-la. (THOMAS; DURANT, 1986, p. 1-14)

Os resultados da produção científica e tecnológica devem, portanto, ser incorporados ao desenvolvimento participativo, regional e local, por meio da mobilização e participação da sociedade civil. Isto só será possível por meio da organização e articulação dos atores sociais e saberes locais e regionais e pela criação de mecanismos de participação da sociedade civil, em que a comunicação e a educação são partes decisivas na construção desses saberes.

A circulação da informação confiável por diferentes meios e redes sociais pode contribuir para a promoção da identidade local e regional, sentimento de pertença. Pode possibilitar que as relações interpessoais e sentimentos de confiança mútua criem e mantenham vínculos, por meio de ações coordenadas que mobilizem as pessoas para a promoção do desenvolvimento sustentável, de interesse público.

Mas como mobilizar as pessoas? Para isso é necessário o interesse comum, porque, como asseveram Toro e Werneck (1996), mobilizar é convocar vontades para um propósito determinado, para uma mudança da realidade. Trata-se, portanto, de uma comunicação dialógica, libertadora como ensina Freire (1980) há décadas.

Ciência na agenda social?

No 6o Fórum Mundial das Ciências, realizado no Rio de Janeiro, de 24 a 27 de novembro de 2013, József Pálinkás, então presidente da Academia de Ciências da Hungria, advertiu que o mundo está dividido entre aqueles que têm acesso aos benefícios da ciência e aqueles que não têm. Segundo ele, temos que trabalhar para reduzir as desigualdades e promover o desenvolvimento global.

O debate sobre o papel da divulgação científica como parte importante da sociedade contemporânea, com seus riscos e incertezas crescentes, esteve presente em várias discussões do Fórum. O tema foi inclusive parte da Declaração Final do Fórum[3], que considerou “fundamental o envolvimento dos meios de comunicação para a difusão do conhecimento científico e das decisões políticas na área”. No mesmo documento classificou como “essencial a integração das ciências naturais, engenharia e ciências sociais para a concepção de ações políticas eficazes que abordem questões globais de sustentabilidade”.

Não menos importante é a fala do cientista escocês James Graser Stoddart,[4] ganhador do último Prêmio Nobel de Química em 2016. Segundo ele, é hora dos cientistas “tirarem a cabeça de baixo da terra” e lutarem contra o desprestígio que a ciência vem sofrendo. Acredita que é necessário e urgente os cientistas assumirem uma posição política na vida pública.

A possibilidade de os cientistas criarem partido político para terem voz no Congresso Nacional chegou a ser contemplada durante a reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Belo Horizonte, MG, em 2017. A notícia foi veiculada no blog do jornalista Herton Escobar do jornal O Estado de São Paulo. A ideia, de acordo com a notícia, foi defendida pelo pesquisador Glaucius Oliva, do Instituto de Física da USP de São Carlos, ex-presidente do CNPq, para quem: “há clara necessidade de termos representação de cientistas, professores e pesquisadores no Congresso Nacional e outras instâncias legislativas do pais, qualificada para defender a causa da educação, ciência e tecnologia como pilares da inovação e do desenvolvimento”[5].

Já o diretor científico da Fapesp, Carlos Henrique de Brito Cruz, na mesma ocasião, afirmou que o ideal seria ter políticos com formação científica em vários partidos para criar uma frente em defesa da CT&I.

Independente do debate prosperar, o fato é que cientistas precisam se articular mais para colocar a CT&I na agenda nacional, para enfrentarem grupos de pressão que se reúnem em bancadas informais em frentes parlamentares de diferentes partidos e ideologias do Congresso Nacional. Esses grupos, cada vez mais coesos, defendem interesses específicos, em que a bancada mais conhecida é a da BBB (Bíblica, Boi e Bala).

Em contrapartida, a baixa participação pública e até mesmo de cientistas ou jovens pesquisadores em diferentes eventos denominados de “Marcha pela Ciência”, surpreende, face às dificuldades crescentes na área. Iniciada no Brasil em 2017 e realizada em diferentes estados brasileiros, a Marcha teve como mote o corte de 44% no orçamento da CT&I e a fusão do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCT&I) com o Ministério das Comunicações. A frágil mobilização popular revela a necessidade de maior articulação nacional em defesa da ciência brasileira.

Esta realidade é também uma demonstração clara da falta de engajamento social da opinião pública na ciência e da percepção da sociedade sobre o do papel da ciência para o bem-estar social, de sua relação com a vida cotidiana e de suas perspectivas para o futuro. Não há uma clareza da sociedade, como sustenta Caldas (2011, p. 19), de que “o conhecimento é uma forma de emancipação social essencial para a conquista da cidadania” e que “educação e cultura científica vão muito além do acesso à informação. Pressupõem o desenvolvimento de uma capacidade crítica para melhor compreender a realidade e se posicionar sobre ela”.

A construção de uma cidadania ativa, participativa, é resultado do acesso à informação qualificada, em que os divulgadores da ciência possam exercer com competência, ceticismo e independência a popularização do conhecimento científico. Como observa Latour (1997, p. 19-20), “para dar independência às análises da ciência é necessário, pois, não se basear unicamente no que os pesquisadores dizem de si mesmos. Eles devem tornar-se o que os antropólogos chamam de ‘informantes’, certamente informantes privilegiados, mas sempre informantes de quem se duvida”.

Desafios e cenários futuros

Considerando a relevância do conhecimento científico para tomada de decisões, é indispensável levar em consideração os fatores econômicos, tecnológicos, políticos, culturais, ideológicos, emocionais e os interesses de grupos para avaliar riscos e consequências dos investimentos e tomadas de decisões sobre a produção científica e tecnológica. Nessa perspectiva, a dimensão ética e os valores sociais precisam fazer parte deste debate para escolhas conscientes.

As decisões éticas e políticas são adotadas como consequência de um debate (implícito explícito), em que intervirão análises pelo viés dos paradigmas e das grades de leitura e aos apelos éticos pelo viés dos indivíduos ou grupos que os expressarem. Apelam ao debate ético e aos valores, mas, enfim, são tomadas de maneira a-racional, por meio de um salto quase místico no desconhecido. [...] Nenhuma dessas escolhas é, contudo, indiferente pois, afinal, nós nos tornamos aquilo que fazemos de nossa história. (FOUREZ, 1995, p. 301-302)

Nos últimos anos verificamos avanços significativos nas políticas públicas de popularização da ciência, cujas diretrizes estiveram presentes nas Conferências Nacionais de Ciência e Tecnologia principalmente nos anos 2001, 2005 e 2010; na criação da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia; na elaboração do Programa Nacional de Popularização e Apropriação Social da CT&I-POP Ciência (2011/2022); e na criação de editais de financiamento à pesquisa na área de divulgação científica. O tema da SNCT de outubro de 2018 não poderia refletir melhor o compromisso da ciência na sociedade: “Ciência para a redução das desigualdades sociais”.

Entretanto, se não houver mobilização social, participação ativa dos cientistas, jornalistas, da sociedade em geral para a defesa da CT&I e a construção de uma frente parlamentar, muitas das conquistas não serão incorporadas pela sociedade. A inserção da ciência na agenda social depende da politização da ciência e de todos aqueles que desejam reduzir as desigualdades sociais.

Considerações finais

A divulgação científica de qualidade que promova a cultura científica e leve as pessoas a refletirem sobre o uso social da ciência e da tecnologia para a toma de decisões em temas de interesse público passa, necessariamente, pela cooperação entre vários atores sociais e principalmente entre cientistas e divulgadores da ciência. O interesse público, e não de grupos de pressão, deve ser considerado neste processo. Se a ciência é um bem público, deve estar a serviço da sociedade.

Cientistas, jornalistas, divulgadores da ciência, educadores devem se mobilizar cada vez mais e mostrar à sociedade como a ciência é relevante para a solução de problemas prementes da humanidade em diferentes áreas do conhecimento. No caso específico das mudanças climáticas, cujos efeitos perversos estão se colocando no dia a dia das pessoas, as evidências científicas sobre o aquecimento global foram palco do Acordo de Paris em 12 de dezembro de 2015, aceito por 195 países. Resta saber se os governantes vão dar segmento ao acordo. Nesse sentido, a mobilização e pressão social em diferentes plataformas é fundamental para garantir a manutenção do acordo, em benefício da própria humanidade.

Colocar a ciência, a tecnologia e a inovação na agenda pública é um esforço conjunto de todos aqueles que têm acesso à informação, ao conhecimento. Compartilhar o conhecimento e promover o engajamento público das pessoas na defesa da CT&I é poder garantir o acesso público aos avanços científicos e seus usos sociais. Neste processo, a divulgação científica crítica e independente na mídia, nas escolas, em museus, nas famílias, na sociedade em geral é a única forma de possibilitar a formação de uma cultura científica crítica e cidadã.

Referências

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RESUMO: Refletir sobre o papel da divulgação científica para a construção de uma cultura científica que permita a participação efetiva da sociedade civil na discussão sobre usos, riscos e benefícios da ciência é o objetivo deste artigo. Para isso discute como a popularização do conhecimento vem sendo realizada, se está mais centrada apenas na disseminação da produção científica ou na sua discussão crítica e analítica. Aborda as relações de poder que permeiam a produção e a apropriação do conhecimento pela sociedade e observa como a formação dos divulgadores, jornalistas e cientistas interfere neste processo. Verifica, ainda, de que maneira a mídia e a escola podem contribuir para a formação de uma cultura científica crítica e cidadã.

PALAVRAS-CHAVE: Divulgação científica; Relações de poder; Cidadania.

ABSTRACT: This article considers the role of scientific dissemination in the construction of a scientific culture that enables society at large of the to effectively discuss the uses, risks and benefits of science. For this, it discusses how the popularization of scientific knowledge has been accomplished and whether it focuses solely on the dissemination of scientific production or also on its critical and analytical discussion. I address the power relations that permeate the production and appropriation of knowledge by society and examine how the formation of disseminators, journalists and scientists interferes in this process. Finally, I consider how the media and schools can contribute to the development of a critical citizen scientific culture.

KEYWORDS: Science communication; Relations of power; Citizenship.

 


[1] Graça Caldas é jornalista e professora do Labjor/IEL/Unicamp. Coordenadora do Grupo de Pesquisa Comunicação, Educação, Ciência Cidadã. Doutora em Ciências da Comunicação pela ECA/USP e Pós-Doutora em Política Científica pelo DPCT/IG/Unicamp.